O que esperar de um diretor como Jean-Pierre Jeunet, sujeito que consegue ser criativo, autoral e popular? Há quem não goste de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, produção videocliptica com diversas variações de ritmo e enquadramentos. Mas algo é inegável – a fotografia – nos filmes do diretor é um dos principais destaques, seja pela adoção de filtros que trazem vivacidade à pelicula ou as “pirotecnias” durante as transições de cena.  O mesmo ocorre em Micmacs última obra de Jeunet, filme sem previsão de estréia no Brasil.

Em micmacs, Jeunet usa os elementos de sucesso de Amelie com excessão da história, dessa vez  protagonizada por Bazil (Dany Boon), sujeito que em determinada noite será vítima de uma bala perdida. Na bala, elemento de mudança, alojado no cerebro do personagem, estará grafada o nome do posterior inimigo. Salvo por uma equipe médica, Bazil perderá o emprego e passará a morar na rua, local onde encontrará uma nova família. Se a história por si parece estranha, ficará surreal pelas caraterísticas do grupo de personagens.

A nova família de Bazil é bizarra, composta por uma contorcionista, uma nerd, um inventor, entre outros, todos empenhados na reciclagem de lixos e sucatas, materiais desprezados pela sociedade, assim como o próprio grupo de coletores, alojado em uma caverna. Mas Jeunet não se empenha na crítica social, seu gênero é o da comédia, onde distorce a realidade com sua conhecida estética. A vida de Bazil ganha um desafio, encontrado com a descoberta de duas empresas fabricantes de armamentos, uma responsável pela morte de seu pai e outra pela bala alojada em sua cabeça.

Se a história não é tão boa quanto Amelie, em parte pelo carisma da personagem de Audrey Tautou, ela segue os mesmos elementos técnicos com closes mecânicos, cores vivas, cenário detalhado e trilha-sonora fundada no conhecido Leitmotiv, mesmo que as notas de piano não sejam entoadas pelo brilhante Yann Tiersen. A cor, baseada em tons de sépia, é elemento primordial nos últimos filmes de Jeunet, já que a distorção visual contribui para a atmosfera onírica das histórias empregadas.

A relação entre diretores e atores no cinema francês parece teatral, o trabalho em parceria é comum e frequente. O mesmo ocorre com Jeunet que permanece com um casting muito parecido. Destaque para o genial Andre Dussolier, ator constante também nos filmes de Alain Resnais. Podemos concluir que Jeunet parece ter construído um padrão estético peculiar, sua fórmula favorita. As próximas obras confirmarão se a mesma terá fôlego, assim como a criatividade do diretor. Se a resposta for negativa Jeunet será famoso por um filme amável, mas que ainda não conquistou unanimidade entre os cinéfilos.

Assista ao trailer de Micmacs

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