Antes de entrar na sessão de Soul Kitchen, filme do turco-alemão Fatih Akin, uma amiga me confidenciou – “li uma crítica que acabou com o filme“. Como assim? Depois de receber tantas indicações e atrasar a ida ao cinema por falta de tempo entro em parafuso após a informação. Detesto ler algo antes de ver o filme, se o faço parece que me condiciono a interpretar a crítica e não o filme. Portanto prefiro o silêncio à qualquer comentário, fato que não exclui a leitura de sinopses ou a visualização de trailers antes da escolha, porém gosto de ler as críticas após desenvolver opinião própria sobre a obra.

Seria perda de tempo tentar entender o motivo de uma crítica negativa à um filme com poucas ambições. Soul Kitchen consegue agradar pelo humor cotidiano, situações cômicas que atrapalham a vida de Zino (Adam Bousdoukos), um imigrante que precariamente sustenta um restaurante em Hamburgo. Não existem elementos inovadores no filme de Fatih Akin, fato  perceptível pelo perfil de cada personagem e pela estrutura narrativa imersa no previsível. Só por isso o filme seria ruim? De forma alguma, visto que o diretor usa muito bem os conhecidos elementos da comicidade, principalmente quando se trata de Zino e a dor nas costas que o acompanha durante todo o filme.

Há mais do que um homem e seu restaurante. Há a falta de apoio do Estado ao micro-negócio. As poucas participações do governo ocorrem de forma punitiva, seja pela visita da vigilância sanitária, pela cobrança de impostos atrasados ou no controle do regime semi-aberto de Illias (Moritz Bleibtreu), irmão de Zino. E o que falar da culinária e da boa discussão entre cheff e cliente que não entende que o prato deve ser servido frio por conta da tradição gastronômica? A própria contratação de um novo cheff por Zino causa mal-estar entre os clientes do restaurante – Quero o bife com arroz! Destaque para a boa trilha-sonora do filme que ondula por diversos ritmos.

Mas Zino não cuida apenas do restaurante, há ainda a vida pessoal do personagem com um namoro a distância e um irmão presidiário. E essas duas relações parecem separadas por uma balança. Enquanto o rapaz está bem com a namorada, sofre com o irmão e o restaurante e quando os negócios e a família se entendem – a paixão vai por água abaixo com a viagem de Nadine (Pheline Roggan) para Xangai. A situação provoca gargalhadas enquanto o personagem se arrasta pela tela. Tantas risadas causam a esperança de um final feliz após tamanho sofrimento. Só quem assistir ao filme verá como tal final pode ser agradável sem ser tolo.

Quando não abusa dos clichês, a comédia proporciona ótimos momentos. Exemplos de Se Beber não Case e Soul Kitchen servem para ilustrar que o genêro ainda respira apesar do número absurdo de bobagens lançadas a cada ano. Soul Kitchen partilha do velho feijão com arroz, simples, quente mas extremamente saboroso!

Assista ao trailer de Soul Kitchen

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