Uma grande (grata) surpresa, uma certeza que desaparece em uma rápida reviravolta, o inesperado turning point. Esse fora o processo de escolha do premiado com o Oscar de Melhor Filme em Lingua Estrangeira no último dia 7. Enquanto todas as apostas circundavam os dois filmes do velho continente, com destaque para o favorito A Fita Branca de Michael Haneke, eis que surge um azarão argentino – O Segredo dos seus Olhos. Quais elementos capacitariam tal produção frente a provável vitória das demais, premiadas em outros eventos e festivais?

Antes  de enunciar uma provável resposta, expresso certa preocupação e tristeza com as comparações mal elaboradas entre o cinema argentino e o brasileiro. Lamentações quanto a vitória do eterno rival futebolístico que deveriam ser comemoradas enquanto conquista do cinema latino-americano. Para que queremos um adorno como o Oscar? O reconhecimento de Hollywood. Nosso cinema tem suas virtudes e deficiências, infelizmente agonizamos com boa parte da verba injetada nas produções rocambolescas da Globo Filmes. Em nosso país há pouco espaço para produções independentes e que fujam das narrativas novelescas.

Longe de tal polêmica o hermano Juan José Campanella mostra maturidade na adaptação do texto de Eduardo Sacheri. Que história magnifica. Ótima por entrosar diversos nichos sem deixar aquela sensação de vazio. Temos passado e presente dos personagens com destaque para a maquiagem, elemento essencial para a divisão de épocas. O que falar da trilha-sonora? O leitmotiv que emociona, a música tem vida própria envolvendo o filme em uma atmosfera dramática das mais belas. Se na ativa, a dupla Kieslowski-Preisner bateria palmas para a sonoridade da produção.

Se o filme merece apenas elogios, não podemos esquecer da atuação impecável de Ricardo Darin e demais envolvidos. O Segredo dos seus Olhos poderia corresponder ao olhar assassino de Isidoro (Javier Godino) mas também à paixão velada entre Benjamin (Ricardo Darin) e Irene (Soledad Villamil), sentimento expresso no olhar mas que não toma formas verbais e/ou físicas. Por vezes os planos destacam os olhos e sua linguagem própria. A fotografia é excelente e a comentada cena – o plano-sequência no estádio do Racing é primorosa, só Campanella e sua equipe devem saber o quão dificil deve ter sido realizá-la.

Criticaria o final, pois encerraria o filme antes, em uma determinada tomada sem o Happy End, apesar de este ser tão belo que não poderia ser desprezado. Depois de tantos elogios, confirmo a vitória justa, do filme que talvez seja o melhor de 2009. Não há segredo, Campanella  sabe simplesmente como adaptar uma boa história e fazer um bom filme.

Assista ao trailer de O Segredo dos Seus Olhos

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