Desde o primeiro trailer de Ilha do Medo percebi que tal produção seria diferente dos demais trabalhos de Martin Scorcese. Arriscado? De maneira alguma, mesmo que a percepção posterior indique que o filme está muito longe da destreza das obras anteriores do diretor. Baseado no livro Paciente 67 de Dennis Lehane, a produção reune um ótimo elenco para contar a história do detetive Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) que acompanhado pelo parceiro Chuck (Mark Rufallo) viaja até uma ilha remota para investigar a fuga de uma detenta.

A ilha em questão é um presidio de segurança máxima para infratores com disturbios mentais. Eis um ambiente fascinante para uma narrativa, já que o arquipélago abriga pessoas com comportamentos condenáveis pela sociedade. Não bastasse a dificuldade imposta pelo campo de investigação, os profissionais que nele trabalham armam barreiras para que Teddy não desvende o caso.

Elevada a lugar mistico e misterioso, a ilha abriga a insanidade entre dois grupos distintos, o primeiro formado pelos pacientes e o segundo pelos funcionários com a representação clássica do médico louco, personagem capaz de diversas experiências para atingir os resultados desejados. Eis a cura a qualquer preço, e com ela a lembrança da tortura praticada pelo regime nazista em flashbacks do detetive, um ex-combatente da Segunda Guerra. O próprio Teddy lutará até o final com um trauma pessoal, a perda da esposa (Michelle Williams) presente em diversos delírios ao longo do filme.

A reunião de tamanha insanidade requer habilidade para que a narrativa principal não se perca entre dezenas de personagens. O filme evidencia, mesmo sem o contato com o livro base, que a história é extraordinária e bem desenvolvida. A direção de fotografia de Robert Richardson também merece elogios, as cenas com a presença de Michelle Williams são deslumbrantes. Porém Scorcese pecou na montagem, pequenos defeitos em algumas transições de cena que não comprometem o filme, fruto de uma pós-produção acelerada.

Ilha do Medo me fez recordar alguns filmes clássicos do gênero suspense/terror, mesmo com a distância absurda entre tais produções. Entre tantos, devo citar o mestre Alfred Hitchcock – gostaria que o mesmo estivesse vivo para dirigir tal obra, talvez um desejo indelicado com o também autoral Martin Scorcese. Mas se tal desejo é irrealizável me contento em perceber a grandeza do trabalho do diretor com os atores, com uma reunião estelar. Todos estão bem no filme desde o ótimo Jackie Earle Haley, passando pela lenda Max Von Sydow até chegar no já maduro Leonardo DiCaprio.

Assista ao trailer de Ilha do Medo

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