Discuti por diversas vezes neste blog a transposição da literatura para as telas de cinema e a inferioridade da segunda mídia em relação à primeira, considerando aspectos narrativos. Obviamente temos boas adaptações cinematográficas de obras literárias, que se aproximam ou superam o teor da mesma. Considerando as especificidades de cada mídia e as estruturas regentes é nítido que a experiência frente a cada uma será diferente. Tal lembrança serve para introduzir o sentimento frente à Brilho de Uma Paixão, novo filme de Jane Campion que merecidamente concorreu à Palma de Ouro no último Festival de Cannes.

A primeira pergunta ao final do filme – Qual livro fora base para esta estrutura? A resposta imediata é “nenhum” visto que o roteiro original é de Jane Campion com inspiração na vida do poeta John Keats (Ben Whishaw). A comparação com a literatura deve-se a estrutura narrativa com uma densidade pouco vista no cinema. Bright Star começa devagar, inicialmente tedioso, o filme é dotado de tanta sensibilidade que se assemelha a um livro que paulatinamente envolve o leitor, neste caso espectador. O ritmo é constante, a montagem perfeita, resumindo – uma bela produção.

A vida de Keats e seu romance com Fanny (Abbie Cornish) já valeriam um melodrama mexicano, contudo é impossível descrever o personagem e esquecer sua obra. A poesia permeia o filme, mas não só sua execução, o confinamento e isolamento são táticas que Keats utilizava durante o processo de criação. Keats é uma pessoa melancólica, simples, o poeta triste que percebe as infindáveis belezas que o cercam. Fanny é oposta, glamurosa e preocupada com a aparência, ela costura não só vestidos como  os caminhos da própria vida. Enquanto isso o romance se desenvolve em prosa e poesia na tragédia anunciada. Shakespeare sobrevive!

Para quem gosta de poesia Brilho de Uma Paixão reune em texto e imagem um universo único. Para tal a fotografia e a trilha-sonora também são significativos cumprindo bem o papel que lhe cabem. Porém parece-me um filme que não atingirá o sucesso e o reconhecimento merecidos, como dito anteriormente o mesmo começa chato e tedioso, talvez para muitos permaneça assim nos tradicionais 120 minutos. Independentemente da opinião sobre, é sem dúvidas uma produção bem construída. Jane Campion é uma diretora madura, pelo desenvolvimento de um belo roteiro, pela escolha adequada do cast e pela finalização de uma obra que pode ser considerada clássica.

Assistir Brilho de Uma Paixão se aproxima como nunca de ler um livro de poesias encostado em uma árvore. Eis que anoitece e aparece a estrela brilhante! Love is in the air!

Assista ao trailer de Brilho de Uma Paixão

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