O chileno Alejandro Amenábar volta à direção de um filme após os êxitos obtidos em Os Outros (2001) e Mar adentro (2004), porém diferentemente destas produções, Ágora (2009) constitui-se enquanto drama épico, narrativa que tem força por basear-se em uma história real. A trajetória de Hypatia (Rachel Weisz), cientista, filósofa e astrônoma nos é apresentada paralelamente ao conflito religioso que se estabelece em Alexandria em pleno declínio do Império Romano. Amenábar consegue destacar o embate religioso da época, com o crescimento e difusão do Cristianismo, elevado quase como outro personagem na obra.

Apesar de baseado em manuscritos, boa parte do filme fora preenchido com situações ficcionais para desenvolvimento do eixo dramático. Independentemente da situação apresentada, a vida de Hypatia e o destaque que recebe na época, é de fato interessante, visto a posição social que as mulheres ocupavam no período. Contudo no filme de Amenábar, Hypatia aparece como estrela solitária já que sequer divide cena com outra personagem do sexo feminino. Fica explicito no decorrer da produção a influência que a personagem recebe do pai, diretor da escola onde a mesma leciona e difunde a essência de suas idéias.

Hypatia, mulher solteira, dedicou parte da vida ao estudo astronômico, sua dúvida era compartilhada com boa parte dos cientistas da época – Qual astro seria o centro da galáxia? A Terra ou o Sol? As principais teses defendiam que o sol e demais astros circundavam a Terra. Aos poucos o macro-cosmo dá lugar ao micro, visto a turbulência religiosa em Alexandria. O crescimento do cristianismo ameaçava o paganismo e o judaísmo, proporcionando violentos conflitos para a dominação da região. Na condição de cientista, Hypatia era pagã enquanto seus discípulos comungavam em diversas religiões, fato que inicialmente não atrapalhava as aulas mas que posteriormente culminaria com a tomada da biblioteca de Alexandria e a destruição do acervo pelos cristãos.

Hypatia resistia a admiração masculina, mantendo-se presa às próprias pesquisas. Um dos escravos de sua família, Davus (Max Minguella), nutria uma paixão não correspondida, visto a posição social que ocupava. Porém Davus será decisivo para a trama quando passar do lado pagão ao cristão, abandonando assim a família a qual era subjugado. A transição entre religiões propiciava a libertação da condição de escravo social para outra tão perigosa – a de escravo católico. A religião aparece como aliciadora de mentes em uma época extremamente pobre e propicia à alienação. A disputa religiosa tinha por objetivo a conquista de poder e territórios, assim que o paganismo é dizimado da narrativa, judaísmo e cristianismo iniciam um conflito pela supremacia na região.

A mediação do embate religioso fica a cargo do prefeito Orestes (Oscar Isaac), ex-aluno de Hypatia e próximo as autoridades religiosas. Orestes fica dividido entre sua professora e o grupo cristão do qual faz parte. Ao final teremos não só a angústia de Orestes como a de Davus em um contraponto interessante entre Amor e . Talvez uma das melhores reflexões propiciadas pela produção seja acerca da intolerância religiosa que atualmente ainda possui elementos parecidos aos de séculos passados. O fundamentalismo religioso tem ampla história, Agora apresenta um fragmento longinquo e vergonhoso.

Assista ao trailer de Alexandria

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