Eis um filme que representa bem o cinema inglês e sua velha tradição enquanto crítica social. An Education da dinamarquesa Lone Scherfig fora baseado nas memórias autobiográficas da jornalista Lynn Barber, porém a história parece ter vida própria e ser comum a muitas inglesas que viveram na década de 60 do século passado. Tal proximidade se deve ao modelo educacional inglês, fundado na tradição e na simples apropriação de conteúdo de seus educandos. Não por acaso na turbulenta 1968, Lindsay Anderson lançaria o revolucionário IF…, uma crítica ferranha ao ensino e sociedade inglesas. No caso de Educação, o foco será justamente o gênero que mais sofreu com o modelo educacional enunciado – o feminino.

O filme enfoca Jenny (Carey Mulligan), uma estudante aparentemente normal que discute com os pais os caminhos da própria educação. A garota se diferencia das demais pelo gosto aflorado pela cultura francesa, preferência não bem aceita por Jack (Alfred Molina), modelo de pai que castra toda a liberdade de escolha da filha. Porém certo encontro em uma tarde chuvosa, logo após um ensaio musical, provocará grandes mudanças no destino da garota. Neste fragmento Jenny será abordada por um solidário rapaz que oferece carona ao Violoncelo, instrumento pesado porém sensível às fortes tempestades. A primeira negativa de Jenny corresponde ao bom senso da época de uma mulher não aceitar a ajuda de um homem desconhecido. Contudo David (Peter Sarsgaard) consegue seduzir a garota com seu conhecimento cultural e simpatia.

A carona até a casa é o ponto de partida para uma relação entre um homem e uma garota. Inicialmente o que impressiona são a elegância e experiência de David, um boêmio permeado de luxo que consegue conquistar não só a garota como toda sua família, talvez porque Jack tenha o rapaz como um modelo de sucesso que jamais atingira. Portanto aquele que se constituirá posteriormente enquanto vilão da trama não passa de um sujeito que sabe perfeitamente usar dos artifícios da sedução para conquistar algo ou alguém. Aos poucos Jenny descarta seu primeiro pretendente, um jovem da mesma idade, por aquele com quem deseja viajar e percorrer grandes aventuras. Apesar de Jenny estar imersa em um sistema onde a mulher já tenha seus papéis e obrigações definidas, a garota age para construir uma identidade própria.

O objetivo inicial de cursar língua inglesa em Oxford entra em conflito com o pedido de casamento de David. Jenny sabe que ao aceitar a segunda oferta descartaria imediatamente a Universidade, assumindo um papel essencialmente doméstico. Decidida, a garota opta pelo matrimônio e nesse momento teremos o principal turning point da produção. A máscara de David finalmente é revelada e a garota que rejeitara a escola e seus antiquados métodos retorna em busca de ajuda. Um dos pontos mais interessantes da obra é o desenvolvimento de Jenny, uma adolescente recatada que através de David começa a descobrir certos prazeres. A perda da virgindade, uma libertação das amarras sociais e a transição para a fase adulta são acompanhadas por outros hábitos que a garota não possuía antes de se envolver com David.

Boa parte da trama é centrada no quarteto formado por Jenny, David e o casal Danny (Dominic Cooper) e Helen (Rosamund Pike). Danny tem um papel interessante já que é um colecionador de arte com gostos parecidos aos de Jenny, razão que leva à uma aproximação estranha entre ambos no decorrer do filme. Educação não é uma produção revolucionária, pelo contrário, como dito anteriormente tem a marca do cinema inglês, um bom roteiro e um ritmo balanceado. No atual cenário transnacional é interessante termos uma dinamarquesa versando sobre a escola inglesa, seja estética ou metodologicamente.

Assista ao trailer de Educação

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