Não há luz no fim do túnel em The Road, adaptação do australiano John Hillcoat para o livro do americano Cormac McCarthy. Aliás há poucas cores durante toda a produção, que me lembre apenas nos flashbacks e em uma cena onde um arco-iris tímido aparece entre a queda d’água de uma cachoeira. Se não existe vida, apenas uma sobrevivência sub-humana, o acinzentado da destruição é a tonalidade mais adequada para a história que destacará a luta de um pai (Viggo Mortensen) e seu filho (Kodi Smit-McPhee) contra um destino imutável. Na convivência entre ambos, a construção de valores essenciais para uma época mórbida é algo significativo durante a narrativa.

Ao contrário de filmes onde paulatinamente conhecemos a origem do caos estabelecido, em The Road essa informação será irrelevante, já que em tempos de pessimismo, o apocalipse parece inevitável. Entre paus e pedras o que vale é a sobrevivência do mais forte e sábio sobre o mais fraco. Poucos restaram e o temor frente ao canibalismo separa e gera a desconfiança em relação ao outro. Em tais circunstâncias pai e filho são nômades a procura de alimento e abrigo, mas sobretudo portadores do “Bem” em uma sociedade devastada. Em diversos diálogos o pai frisa que eles são “Homens Bons” enquanto os demais provavelmente façam parte do grupo dos “Homens Maus“.

O filho faz o papel do “escolhido“, a esperança de uma raça extinta. Porém o perigo iminente do “outro” ameaça a sobrevivência de ambos personagens. A  proteção ocorre atrávés de um revólver e de uma única bala, tal sempre a favor do suicídio do filho em caso de captura. Nesse caso a vida estará diversas vezes em xeque, a favor de uma morte digna. Perde-se a existência, porém, jamais a honra. A resistência do pai é um sacríficio pelo filho, pela crença no outro e no seu poder de superação. Contudo o questionamento sobre a validade de tamanho sofrimento fica latente na importância da arma e seu poder frente ao destino.

O caminho é tortuoso e as pessoas que o cruzam são perigosas já que tendem a atrapalhar a relação familiar. O ambiente é seco e frequentemente desmorona, ao contrário do amor do pai perante o filho que permanece inatingível durante toda a narrativa. Imagino o quanto perdemos nesta adaptação cinematográfica, visto o abismo entre o cinema e a literatura, poucas vezes bem preenchido. Como não realizei a leitura da obra de McCarthy, não consigo exprimir qualquer comparação, mas de certo que o filme despertou meu interesse pelo livro. Já é a segunda adaptação que assisto do autor, a outra fora através do também sombrio Onde Os Fracos Não Tem Vez.

Destaque para a atuação de Viggo Mortensen, um ator que soube escolher bons filmes para atuar após sua explosão na trilogia O Senhor dos Anéis. Outro ponto impressionante é a maquiagem bem composta, que apresenta um irreconhecível Robert Duvall no papel de um homem velho. Infelizmente The Road é só mais um filme dentre a avalanche pessimista que aborda o fim da humanidade, seja através dos desastres naturais ou da auto-destruição. Não há nada de novo além de boas interpretações e uma boa estrutura. O filme segue pela mesma estrada sombria iniciada pelo cinema catástrofe… há muito tempo atrás numa galáxia distante…

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