Inicialmente Amor sem Escalas (Up in the Air) de Jason Reitman parece um filme sem muitas emoções. Assim como Juno, a grande sacada estará em situações cotidianas entrelaçadas por um belo roteiro. A produção começa com imagens áereas, espaço onde Ryan Bingham (George Clooney) fará as escalas necessárias ao seu trabalho, ocupação não muito agradável. Ryan é um agente contratado para realizar demissões em empresas que tercerizam a função no intuito de evitar choques e conflitos com os funcionários demitidos. Tal cargo vem a calhar em uma época onde a crise financeira reduz os postos de trabalho e estremece a economia.

Aos poucos fica perceptível que Ryan é um sujeito metódico, solitário e portador de um objetivo um tanto estranho – colecionar milhas áreas em suas diversas viagens pelas cidades americanas. Porém quando o fator tecnológico ameaça seu cargo, o personagem evidenciará um lado humano apurado. O homem frio e de negócios fica incomodado com a virtualização de sua atividade, intermediada por um computador, uma câmera e uma conexão com a internet. A idéia consiste na redução de custos e padronização do trabalho de Ryan, porém tal praticidade mostra-se banal em uma das melhores cenas da produção, o teste final do equipamento com um sujeito prestes a perder o emprego.

A péssima relação homem x máquina fica latente na desumanização que o funcionário passa em frente ao computador, momento de extrema solidão e abandono. Porém em outras cenas o filme provocará reflexões sobre nossas relações com a tecnologia. O celular é outra arma potente com o término de relacionamentos ou abandono de emprego via SMS. A crítica de Reitman fica bem dissolvida na produção e até perde a força necessária para estremecer a audiência frente a algo tão grave. A própria postura de Ryan é mecânica em determinadas situações, como visto nos procedimentos de embarque no aeroporto ou abordagens pessoais com amigos e família.

Além de acompanhar as viagens de Ryan, o filme apresenta sua relação com Alex (Vera Farmiga), paixão conquistada em uma das viagens, caso que não evolui por conta da Filosofia do personagem que dificilmente se envolve emocionalmente com alguém. Há também a jovem Natalie (Anna Kendrick) que acredita piamente no projeto tecnológico, sua  inexperiência aparece durante as entrevistas com os demitidos, momentos constrangedores dos quais a personagem não consegue se desvencilhar. Talvez por isso a tecnologia seja tão importante ao mascarar um momento tão delicado. Já a família de Ryan emerge com o casamento de sua irmã, evento que serve para confirmar o isolamento do personagem.

Paulatinamente chegamos ao final, os personagens passam por uma virada de certa forma surpreendente. O ritmo balanceado lembra Juno, mas Amor sem Escalas tem pouco para ser comparado com outra produção. É um filme gostoso, café com leite, um candidato a ser lembrado nas premiações mas que provavelmente passe batido durante o anúncio dos vencedores,  fato que não o desmoraliza. Se há algo que a produção faz bem é demonstrar que alguns vivem com os pés na terra e a cabeça nas nuvens.  A tecnologia e o impacto nas relações humanas aparece muito bem no último voo de Jason Reitman. Parece que não fui o único na face da Terra a ser demitido através de uma mensagem virtual.

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