A abertura de Guerra ao Terror deixa explicita a opinião da diretora Kathryn Bigelow em relação ao conflito no Iraque – A Guerra é uma Droga. Após a bela definição entramos em território hostil, recheado de artefatos explosivos. A sequência revela que acompanharemos um esquadrão anti-bombas pronto a desarmar mais uma armadilha de rebeldes iraquianos. O cuidado na aproximação do objeto cria a tensão necessária ao filme de guerra, um gênero onde a morte parece programada a acontecer na cena seguinte. Sabemos que a bomba existe mas ela não está isolada, já que o entorno é povoado de iraquianos que observam o trabalho de três sujeitos. Um desarma a bomba enquanto os outros dois dão cobertura ao primeiro, porém todos que aparecem em cena são potenciais suspeitos.

A tensão só aumenta quando um homem aparece com um celular na mão, eis a primeira baixa do filme. A perda do especialista em desarme é logo reposta com a chegada do Sargento William James (Jeremy Renner), sujeito diferente, ousado e por vezes inconsequente, fato que irrita o Sargento Sanborn (Anthony Mackie), companheiro de trabalho acostumado ao rigor técnico das missões. Enquanto James usa a adrenalina das missões como uma espécie de droga injetável, Sanborn conta os dias para o retorno para casa. Entre diversas missões o filme também revela o tempo que resta para a companhia encerrar suas atividades no país. O choque entre os dois sargentos é observado pelo soldado Eldridge (Brian Geraghty), o mais pessimista do trio.

Cada passo no solo seco do Iraque revela um perigo iminente, mesmo com todo o poder de fogo, o trio sabe que qualquer descuido pode custar a vida de alguém. O trabalho de pesquisa para composição dos personagens fora perfeito, se não fosse formatado enquanto ficção, as missões se enquadrariam como registro documental, tamanho rigor militar desenvolvido pelos atores. Mas o melhor é seguir a coragem absurda de James em sua arriscada profissão, o sargento guarda os dispositivos de detonação como lembranças de um aparente sucesso. James se envolverá sentimentalmente com o local enquanto para os demais aquele momento não passará de um breve estágio no inferno.

Kathryn Bigelow mostra o quanto a guerra vai corroendo a sanidade humana com seus personagens defeituosos, não existem heróis no campo de batalha. James, o único que poderia figurar como herói, é mais um atormentado que usa a guerra como válvula de escape para os próprios problemas. Não existe a bandeira americana tremulando e clamando pela vitória, talvez esta seja a principal qualidade do filme. Três homens lutam pela sobrevivência, uma pena que não exista o lado iraquiano, as bombas parecem que brotam sozinhas do solo. O desarme é feito para que o imperialismo americano avance sem qualquer perigo. Pode ser que exista petróleo embaixo de tantos explosivos ou será que o desarme é em prol das famílias iraquianas?

O filme não discute essa questão pois permanece preso a seus personagens. Ao término da estadia no Iraque, James retorna a sua esposa e filho mas sente a dificuldade de digerir as memórias do conflito. A sequência final revela qual é o verdadeiro campo de batalha do Sargento. Percebemos que a guerra é uma droga, mas que o filme é ótimo para refletir sobre o significado das ações militares cotidianas. Uma pena que com um título mal traduzido e uma distribuição as escondidas um dos melhores filmes do ano tenha que ficar desarmado na prateleira de uma video-locadora de esquina.

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