Ainda estou pensando no motivo da escolha de Los Abrazos Rotos como título da última produção de Pedro Almodóvar. Um filme que abraça diversas temáticas na cegueira de Mateo Blanco (Lluís Homar), personagem pelo qual desenrolam passado e presente de outros caracteres, dentre os quais Lena, interpretada pela exuberante Penelope Cruz. Almodóvar centra a narrativa no universo masculino com algumas peculiaridades autorais que marcaram suas últimas produções, talvez em uma tentativa de aos poucos desconstruir uma obra tão envolta por personagens femininos e homossexuais.

O próprio diretor já expressou sua dificuldade para destacar personagens masculinos em suas tramas, seria esta uma das poucas vezes que os homens se sobressaem perante as mulheres na história desenvolvida, visto que Lena aparece pela primeira vez enquanto secretária de Ernesto (José Luis Gómez), um milionário que cobiça o corpo da empregada. A pobreza de Lena é a porta de entrada para uma relação fundada no interesse material de uma e sexual de outro. Aos poucos Lena centra seus objetivos na carreira de atriz que sempre sonhou ter, conhecendo na sequência Mateo, o diretor de cinema fundamental para a história.

Paulatinamente Almodóvar desenvolve uma  metalinguagem, uma homenagem ao cinema com personagens que constituem parte do processo de desenvolvimento de uma película. Entre passado e presente o que mais interessa ao espectador é descobrir o motivo da cegueira de Mateo, um conquistador que arranca suspiros das principais personagens do filme. Como dito anteriormente, apesar da mudança brusca para o eixo masculino, algumas peculiaridades permanecem no estilo de Pedro Almódovar como a narrativa com elementos temporais, relações conflituosas e tabus sociais.

Porém novamente o que mais me chamou a atenção foram a direção de arte, a fotografia e o ritmo da obra. Os closes são bem diferentes dos vistos em Volver mas o enquadramento continua impecável, assim como as cores que integram cada frame. O figurino dos personagens combinam com o cenário formando uma paleta de cores quentes que lembram os quadros de Joan Miró. Fator que esteticamente parece uma marca registrada do diretor. Se teoricamente o roteiro possui algumas falhas, a técnica que o envolve parece magistral.

Almodóvar deve ter saído triste com as críticas injustas que recebeu, visto que seu novo filme não é tão ruim quanto aparenta. Talvez o nível de expectativa fosse muito alto e para segurança o diretor tenha desenvolvido algo abaixo do que costuma produzir. Quem sabe se o retorno as personagens femininas, tão marcantes em sua filmografia ajude a vencer esse período onde uma certa cegueira o acompanhe. O universo de Almodóvar está batido, está na hora do diretor se re-inventar. Torço para que Mateo consiga voltar a enxergar em breve.

Anúncios