Depois de um longo período de trabalho, eis que chega sexta-feira, dia para conferir as estréias cinematográficas da semana. Porém nenhum filme fora mais aguardado neste fim de ano quanto Avatar, produção milionária do então inativo James Cameron. O esforço para chegar cedo a sessão, escolher um belo lugar e desfrutar do filme de ínicio ao fim emperrou no trânsito da cidade, provocando um atraso de 15 minutos, tempo precioso e perdido sem direito a choro, nem vela. Tantos dias alimentando o desejo de ver algo que o Marketing elevou como a maior experiência filmica da década que o impulso de colocar os óculos 3D e começar a visualização foi mais forte do que qualquer lamento.

Não é segredo que desde Up – Altas Aventuras tenho um affair com filmes em três dimensões. Gosto da sensação de profundidade e do salto da imagem, mesmo percebendo que o aparato ainda tem fortes deficiências. Uma das estratégias publicitárias de Avatar prometia corrigir tais falhas, fato que aliado a alta tecnologia empregada formariam junto ao gênero aventura os principais atrativos da produção. O filme consegue avançar na tecnologia 3D com imagens altamente atrativas, principalmente quando imergimos no ecossistema do planeta Pandora, contudo enquanto narrativa, a produção de Cameron segue o velho Feijão com Arroz.

Apesar das promessas “políticas”, diversos elementos que integram Avatar possuem proximidade com outras produções. Comecemos pela história, a entrada de Jake Sully (Sam Worthington) e sua turma em um ambiente desconhecido e hostil – o planeta Pandora – astro que poderia integrar qualquer galáxia da saga Star Wars de George Lucas. A vegetação do filme é complexa mas baseada na diversidade das maiores florestas tropicais da nossa mal-tratada Terra. A decisão de investigar tal planeta se deve a existência de um minério, uma fonte alternativa de energia altamente valiosa, sobre este objeto o filme destacará a ganância do homem e seu poder de destruição quando o assunto envolve um punhado de doláres.

A sobrevivência em Pandora envolve alta tecnologia já que a atmosfera do planeta é tóxica, não fornecendo as moléculas necessárias a respiração humana. Portanto um dos meios de exploração do ambiente ocorrerá através de clones do povo Na´vi, seres azuis que formam um contraste com a mistura de cores do ecossistema. Tais avatares são uma forma virtual de imersão num cenário onde o deslocamento espacial ocorre como em Matrix, porém sem a filosofia encontrada no filme dos irmãos Wachowski. Jake Sully, o típico jovem inconsequente é aquele que irá figurar como herói da trama, posição construída após ser salvo por Neytiri (Zoe Saldana), a princesa dos Na’vi.

O convívio de Jake Sully com a tribo Na’vi despertará o jovem fuzileiro para aspectos culturais, antes descartados pelos objetivos da missão que integrava. Apesar dos corpos azuis, orelhas pontiagudas e a exagerada altura, a população Na’vi tem costumes familiares aos principais povos tribais dos quais temos registro e conhecimento. Eis o contraste da natureza com a ciência que não conseguem coexistir no mesmo ambiente, logo Jake percebe a importância da preservação do hábitat e seus integrantes, animais alados e terrestres que parecem misturas dos dinossauros de Spielberg com as criaturas oníricas de Guillermo Del Toro.

O lado humano também possui suas particularidades com a figura do ganancioso empresário Parker Selfridge (Giovanni Ribisi), do general estereotipado Miles Quaritch (Stephen Lang) e da bondosa cientista Grace Augustine (Sigourney Weaver) assustadoramente um grupo que representaria individuos qualificados para uma missão de grande importância, o desembarque em um local desconhecido como Jurassic Park. Essa turma conduz telas virtuais parecidas com as utilizadas por Tom Cruise em Minority Report e robôs importados da quase extinta cidade de Zion. Obviamente nada foi copiado, mas talvez aperfeiçoado pela exuberante tecnologia lançada por Cameron.

E se cada detalhe recorda inúmeros filmes, o mesmo ocorre com a narrativa transformada em épico shakesperiano, uma história marcada pelo amor proibido, traições e sacrifícios. Dentre tanto sofrimento há a figura do escolhido, o salvador – Jake Sully, um militar paraplégico, condição que serviria de crítica as consequências da guerra, mas como a questão não é discutida reverte como elemento dramático, visto que Jake retoma os movimentos com seu avatar, um enigma parecido com o de John Locke em Lost. Assim como Locke, Jake terá uma experiência que causará imenso prazer, pondo em dúvida se valeria a pena voltar ao estado anterior.

Talvez o último filme que tenha despertado tamanha curiosidade do grande público tenha sido O Retorno do Rei, produção que fecha a trilogia O Senhor dos Anéis. O Retorno do Rei também se vangloriava do lançamento de novas tecnologias visuais, porém se há uma diferença evidente além do 3D no filme de Cameron, seria a adaptação por Peter Jackson de uma história infinitamente mais rica. Não dá pra comparar Tolkien com Cameron, nem valeria a pena em virtude dos objetivos e diversos outros quesitos. Avatar atinge em cheio o público de diversas faixas etárias com seu melodrama pacifista. O filme precisa recuperar o gasto – investimento alto no politicamente correto.

Ao sair da sessão me senti como uma criança que vê pela primeira vez o mar e fica estarrecida com sua grandeza visual, porém com o tempo a mesma criança percebe que aquele mar preserva caracteristicas iguais, alteradas pela altura das ondas. O filme de Cameron é uma grande onda hawaiana que inunda nossos olhos, mas que desaparece instantaneamente. Parece que há algo novo, a sensação tecnológica que logo se difundirá entre dezenas de filmes. Agora é torcer para que a bomba atômica de James Cameron seja bem utilizada e não cause naufrágios do tamanho de um Titanic. Hollywood conhece o efeito de um filme como Avatar mas continuará cautelosa quanto aos gastos. Parece que nosso ecossistema cinematográfico continuará caminhando para a destruição.

Avatar é uma feijoada que pesará por algum tempo no estômago, os comentários sobre uma possível continuação ecoam pelos bastidores

Anúncios