O último filme de Francis Ford Coppola não passou despercebido pelo meu radar, apesar do caráter quase independente da produção. Tetro inicia sua jornada como uma obra cinematográfica que contém elementos e citações a outros segmentos artísticos como o teatro e a música. Para enriquecer o ambiente, Coppola selecionou justamente uma das cidades sulamericanas que respira e transpira cultura – Buenos Aires. A escolha de La Boca para o re-encontro entre os irmãos Tetro (Vincent Gallo) e Bennie (Alden Ehrenreich) ilustra a degradação de uma relação familiar envolta em um grande mistério.

A visita de Bennie ao irmão mais velho funciona como uma fuga ao poder econômico familiar, já que Tetro sobrevive na simplicidade do famoso bairro argentino com uma profissão um tanto curiosa – iluminador. Tetro ilumina as peças alheias já que suas próprias criações permanecem presas ao passado obscuro. Enquanto isso Bennie tenta descobrir os motivos que levaram um talentoso escritor a se exilar, contudo a disposição de Tetro em revelar segredos de sua vida particular é quase nula. O filme de Coppola sobrevive pela paulatina abertura que Tetro concede ao irmão que por várias vezes buscará respostas com a ajuda da cunhada.

Um dos pontos altos da produção encontra-se na fotografia em preto e branco que diversas vezes será confrontanda com flashbacks coloridos. Essa inversão estranha demarcará de forma especial o passado e as angústias de Tetro. O filme tem vários elementos melodramáticos, apesar de ser uma produção essencialmente norte-americana, é perceptível que Tetro tem sangue latino impulsionado pelo cenário e pela trilha-sonora que dá ritmo de tango a uma tragédia anunciada. Ao final parece que Coppola atinge o objetivo de desenvolver algo próprio, sem grandes intervenções de estúdios e produtores.

O filme caminha para a consagração de Tetro que com a ajuda do irmão consegue entrar na disputa de um Festival de Teatro. Porém quanto mais a história se desenrola, mais os dois irmãos vão chegando perto do grande mistério que envolve a família e o filme. A história é simples, assim como o desfecho da obra, porém o que encanta é a supremacia de Coppola como diretor, um sujeito seguro em seus devaneios. O que seria aquele canto estranho que em diversos trechos eleva a narrativa a um estado onírico? Composição muito parecida a outra utilizada por Alain Resnais em uma de suas obras.

Obviamente Coppola não obterá reconhecimento por Tetro, seu passado parece preso a Trilogia O Poderoso Chefão e a Apocalypse Now, filmes onde investiu muito tempo e dinheiro. O caráter autoral do diretor passou por uma profunda transformação, já que o esforço sobre-humano visto em Apocalypse Now dificilmente se repetirá em outra obra. Mesmo assim, Tetro, um filme ainda estranho para mim, merece ser visto já que provém de alguém com um currículo invejável. Veja o trailer abaixo:

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