Não sou grande conhecedor do cinema coreano. Aliás apenas um filme da região aparece entre meus favoritos. Dificil para quem gosta da sétima arte nunca ter ouvido comentários sobre Oldboy de Chan-wook Park, talvez a obra máxima do cinema coreano neste século. Oldboy merece uma análise individual, contudo serve como referência para a discussão de uma outra obra sul-coreana – Mother de Joon-ho Bong. Semelhanças? Talvez uma estrutura narrativa que não é exclusiva do cinema da região, mas que aparece com força em ambos os filmes.

Com uma abertura estranha, reconhecemos uma senhora que aparece séria e aos poucos começa a dançar em um campo, em um movimento que parece estimulado pelo vento. Prontamente percebemos que aquela mulher não é normal, pelo contrário, no decorrer do filme suas atitudes definirão o quanto perturbada encontra-se a mesma. A personagem, mãe que intitula o filme, possui uma relação doentia com o único filho, rapaz com déficit mental e que logo estará envolvido em um caso de assassinato. No começo do filme a mãe apresentará diversos comportamentos que a caracterizariam enquanto “coruja“, mas a preocupação exagerada desvia o adjetivo para um outro patamar – o da loucura.

A narrativa é calcada no assassinato de uma garota e na acusação do único filho da senhora descrita anteriormente. Para provar a inocência do rapaz, a mãe se dispõe a investigar todos os envolvidos no crime. Neste momento presenciaremos o conflito do “amor” de Mãe contra o que seria honesto e correto perante o outro, como na cena da tortura de dois jovens em troca de informações. Como no filme de Chan-wook Park, ocorrerá um turning point para desestabilizar a própria narrativa e o espectador, em uma aparente surpresa digna dos melodramas mexicanos. Contudo a virada de Mother aparece bem mais fraca que a de Oldboy.

Inicialmente a chatice da mãe parece provocar raiva e constragimento, inclusive ao espectador, sentimento que gera repulsa a figura da atriz que interpreta a senhora. Mas como personagens nem sempre são construídos para agradar quem os assiste … temos uma ótima anti-heroína, capaz de tudo pelo seu único bem – o filho. Já o filho, tolo demais, fica mais próximo ao sentimento de pena, um coitado que com uma mãe daquelas só poderia ser de fato perturbado também. O filme preso a essa relação familiar provocará conflitos individuais ao final, onde ambos guardarão o segredo alheio. Um desvio interessante para que a obra não mergulhasse na vala comum.

Eis algo essencial em ambos os filmes citados – o choque de valores. Mesmo em sociedades tão rigídas como a oriental, existe um conflito entre o passado, o presente, a tradição e a modernidade. É bom ver que o cinema coreano tem sua produção refletindo este momento, mesmo que indiretamente. A bem da verdade o que me preocupa agora é a situação materna do país, com mulheres tão possessivas. Depois de algo tão grave, não dá pra espetar uma agulha na perna e sair dançando como nossa mãe desnaturada!

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