Ingmar Bergman. Que sujeito fantástico. Há quem o considere o melhor diretor de todos os tempos. Não retruco, mesmo com meus preferidos conheço a dimensão do seu trabalho no cinema e tenho certeza – se Bergman fosse norte-americano o reconhecimento seria muito maior. O primeiro filme que vi do mestre sueco foi O Sétimo Selo, um dos melhores filmes que vi na minha vida. Além de inteligente, a obra é bárbara tecnicamente. Eis um dos poucos diretores que consegue manter  nível elevado nos quesitos quantidade e qualidade. Devo agradecer já que meu contato com tal cinema ocorreu por conta de uma amiga apaixonada pelas temáticas desenvolvidas pelo diretor.

Com tantos adjetivos, algo deveria ir mal na jornada de Bergman. Aos que tiverem a oportunidade de assistir ao belo A Ilha de Bergman perceberão que muitos filmes do diretor refletem experiências próprias. Bergman sofreu durante a infância com uma educação extremamente rígida (o pai era pastor). Porém o choque inicial ocorre quando entramos na casa do diretor que nos apresenta diversas referências aos pais, através de móveis, relógios e outros objetos. Não há ódio pelos pais, pelo contrário o sueco nutre um sentimento de saudade através de objetos que pertenceram a sua infância e família.

Bergman é o Rousseau do século XX, abandonou os próprios filhos para morar sozinho e desenvolver a carreira. Os problemas de relacionamento que vemos em seus filmes condizem com a vida real do diretor que na velhice prefere se isolar na ilha que por muitos anos habitou. A Ilha de Bergman nos traz os últimos anos de vida de um artista fantástico mas que na curiosa obra parece mais próximo de uma análise pessoal ao invés de artística. Quem não gostaria de conhecer o cantinho que o gênio habita?

Lembro-me de uma visita a Casa de Pablo Neruda em Valparaíso, Chile. Um lugar maravilhoso com um quarto com uma janela em forma de meia lua que dava para ver todo o porto da cidade. Pensei com meus botões que deitado ali, eu  poderia desenvolver melhor minhas noites poéticas. Mas ocorre algo diferente com Bergman, o isolamento não me interessa, mas para o sueco talvez tenha sido a forma mais adequada de lidar com tantos sentimentos ambiguos. Com tanta fama e tantas dores, Bergman encontrou refúgio em uma ilha com poucos moradores.

O documentário faz bater aquela saudade de pegar um filme do mestre para assistir. Ainda bem que ele fez tantos que ainda estou longe de conhecer todos. A Ilha de Bergman apresenta um sujeito simples, com uma rotina normal pela idade, é o espaço de repouso para quem fez muito. Seria apenas um pedaço de terra cercada de água por todos os lados. Mas não é só isso, é a Ilha de Bergman, nome que é sinônimo de Sétima Arte.

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