adam

Tudo caminhava para uma ótima sessão. Cinema parcialmente vazio, brigas por lugares amenizadas, até que alguém levanta antes do ínicio da sessão e esbraveja – “Pessoal a repescagem desse ano só ocorrerá na Cinemateca e no Cinesesc, precisamos nos mobilizar! Vamos mandar um e-mail para a organização!” Ao que a mulher ao meu lado incomodada com tal situação retruca – “Não vou fazer isso com o Leon Cakoff que faz um trabalho maravilhoso trazendo tantas obras para nós.” A discussão precedeu uma produção pela qual nutria imensa curiosidade. A Ressurreição de Adam do diretor Paul Schrader fora um dos filmes mais comentados pela crítica que pontuava uma abordagem pouco comum de um tema tão adaptado pelo cinema – o Holocausto.

Adam (Jeff Goldblum) é um sujeito que caminha entre a genialidade e  a loucura, como forma de tratamento o personagem é encaminhado a um sanatório com outros pacientes que possuem algo em comum, todos ainda sofrem com as consequências do Holocausto. Aos poucos conhecemos a trajetória de Adam , comediante de grande prestígio em uma Alemanha prestes a ser dominada pelo regime nazista. As memórias de Adam são inseridas no decorrer do filme como flashbacks ou inserções longas que revelarão a ruína do personagem, sua família será desintegrada pelos campos de extermínio e a humilhação será extrema, visto que Adam ficará sob aprisionamento do Comandante Klein (Willem Dafoe).

Klein destitui o caráter humano de Adam o transformando em animal de estimação, situação que em diversas passagens volta a mente de nosso personagem, atormentado pelo passado. Adam é um sujeito mítico, permeado por certa magia e que parece prever tudo que o cerca. Será dessa forma que descobrirá algo no sanatório que causará grande intriga. Preso em um dos quartos, existe uma criança com comportamento animalesco. Tal personagem próxima ao Garoto Selvagem de François Truffaut transformará o ambiente. Inicialmente rejeitada por Adam é nela que ele encontrará a ressurreição necessária para superar seus piores traumas.

A proximidade entre Adam e o Garoto Selvagem transformará a vida de ambos, já que o comportamento canino da criança lembra toda a humilhação sofrida pelo personagem no campo de concentração. Nesse momento Schrader desenvolve 3 núcleos narrativos que formam uma teia ao redor de Adam, muito bem interpretado por Jeff Goldblum. Entretanto falta uma certa força ao filme que tem pontos altos e baixos durante toda a narrativa, destaque para as cenas entre Adam e a enfermeira do sanatório, momento cômico em que ele destila seu poder de sedução sobre uma personagem ninfomaníaca.

Infelizmente uma cabeça enorme privou meu olhar da parte técnica da obra. Tive o azar de sentar algumas fileiras atrás de um sujeito que tinha o corpo do Gustavo Borges e a cabeça do Selton Melo, fato que atrapalhou o acompanhamento das legendas digitais. Infelizmente ainda existem aqueles que acham que estão sozinhos nessa existência. Diversas pessoas acompanharam o filme de pé por conta de um cabeção. Eis um azar que ocorre algumas vezes na jornada cinematográfica. Futuramente voltarei a ver o filme, obra mediana que criativamente desenvolve um tema tão delicado na história da humanidade.

Anúncios