Tatarak

Lembro-me do calor, alguns copos de chopp, uma sala de cinema cheia e abafada. De repente vejo que Alga Doce, filme de Andrej Wajda está na metade do percurso. O calor misturado ao álcool, cansaço e lentidão privou-me do ínicio e do entendimento total da obra. Ao acordar fiquei perdido em um filme complexo que mistura adaptações literárias a uma história real, a morte de Edward Klosinski, diretor de fotografia, vitima de câncer, e esposo da atriz Krystyna Janda. Ambos são velhos colaboradores de Wajda, portanto o filme serve como homenagem ao casal, já que resgata os últimos dias de Klosinski através do monólogo produzido por Janda.

Percebi antes do cochilo que não seria uma produção fácil de digerir, Wajda tem um ritmo peculiar, próximo a lentidão, gosta de contar a história com calma. Nas narrações de Janda a câmera fica parada, não há mudança de planos, somos obrigados a fixar nosso olhar na tristeza da atriz. Depois mudamos de ambiente e conhecemos um médico e sua esposa prestes a falecer, a mesma desconhece a gravidade da própria doença. Wajda trabalha vida e morte em várias passagens, como na paixão que Marta (Krystyna Janda) nutre por Bogus (Pawel Szajda), um jovem com idade bem inferior a dela.

Bogus é um sujeito acomodado, apaixonado por outra garota, o personagem procura em Marta a referência que pode suprir sua falta de experiência no relacionamento amoroso. Já Marta encontra o prazer que falta a sua idade na juventude e inocência de Bogus. Tal relação provocará ótimas cenas como no encontro em que ele mergulha para recolher as algas doces que intitulam a obra. O rio parece o espaço onde ambos inverterão a pulsão, enquanto Marta desperta para a vida, Bogus terá um fim trágico. O próprio Wajda aparece na condução da ficção, misturando a adaptação com a morte de Klosinski.

Para um filme complexo, nada melhor do que estar descansado para direcionar toda a atenção necessária. Eis um obra como uma ótima idéia mas que precisarei rever para consolidar uma opinião. Gostei do pouco que assisti. Wajda estudou em Lódz, escola pelas quais passariam Polanski e Kieslowski. Gosto tanto de Danton que preciso pagar o pecado cometido. Sinto que dormi a beira do rio e a história correu junto com as águas que não voltam mais.

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