Viajo

Que parceria fantástica formam Karim Ainouz e Marcelo Gomes. Recordemos o belo trabalho desenvolvido em Madame Satã; Cinema, Aspirinas e Urubus e o Céu de Suely. As últimas produções, enraizadas no nordeste carregam toda minha admiração, visto as dificuldades para conseguir apoio num cenário nacional que paulatinamente volta a reproduzir histórias fora do eixo Rio – São Paulo. O mesmo acontece em Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, título próximo ao universo construído por Mia Couto em suas obras literárias. Só o nome do filme vale o preço do ingresso, dirá a poética que segue toda a obra.

Nessa nova empreitada conhecemos um viajante, o narrador perdido na aridez dos próprios pensamentos, suspiros e lamentações. Na primeira parte do filme percorremos a estrada, e viajamos através da lente de uma câmera que nunca revela o corpo que dita o ritmo. Uma voz pode soar estranha ao começo, mas logo se adequa as imagens. Sentimos a solidão do personagem naquele ambiente um tanto vasto, nossa estrada tem buracos que alguns insistem em cobrir com areia para levar algum trocado. Não é uma experiência fácil, algumas vezes as imagens parecem repetidas, entediantes mas são fudamentais na contrução da narrativa.

Logo percebemos o descontentamento de nosso personagem, um geólogo num terreno pobre, onde pouco brota. A distância da amada irrita o narrador que conta os dias para a volta, em meio a cenários que vão do deserto total até as movimentadas festas populares de algumas cidades da região. As referências religiosas passam sem qualquer incomôdo assim como as músicas típicas, baladas bregas que fizeram sucesso por todo o país. A cômica Morango do Nordeste não desagrada os ouvidos mais rigorosos pois encaixa-se perfeitamente ao contexto da obra.

Tanto amor encaminha o filme ao turning point, momento no qual o narrador revela sua situação com a amada. O teor apaixonado do personagem passa por uma grande transformação. A lente que explorava espaços vazios logo começa a observar a prostituição da região. Mulheres de todos os “tipos” interessam nosso narrador que não tem pudor ao tratá-las como simples objetos de prazer. Eis um dos pontos altos – a forma como o filme desenvolve os sentimentos pela narração acompanhada de imagens. Os sentimentos mudam, a entonação e as imagens acompanham. A viagem, motivo de tristeza inicial torna-se fundamental para a superação de um trauma. Viajo porque preciso, mas e a volta? Será mesmo por amor?

A ótima fotografia misturas diversos tipos de película, desde o rústico Super 8 até material digital. Esse mix de formatos contribui para a atmosfera poética, produzindo diversos olhares para cenas semelhantes. Tanta poesia e deu vontade de escrever na parede – Viajo porque preciso, volto porque te amo – mas não será necessário, a expressão permanecerá viva na memória. Para quem não acredita na riqueza do nordeste verá que a produção é uma obra de arte trabalhada com os elementos disponíveis. Que bom que tal concepção tenha uma mãe cearense e um pai pernambucano, fato que só aumenta nossa vontade de ter uma “Vida-Lazer”.

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