35shots

Há certos filmes que nos procuram, apresentam-se delicadamente nas situações mais simples. Estava na fila do cinema quando escutei comentários sobre as já famosas 35 Doses de Rum. Mesmo com o pensamento em outra obra (Ervas Daninhas) consegui guardar o título, talvez por conta da referência a uma bebida que nunca apreciei. Não contente com nosso primeiro contato, eis que o filme começa a aparecer nos principais meios sobre cinema que participo. Com um tiro no escuro fui atrás da obra, conseguindo uma vaga pra lá de disputada.

Aquilo que alguns nomeiam enquanto destino apresentou-me uma produção magnífica. 35 Doses de Rum da minha então desconhecida Claire Denis é sutil do ínicio ao fim, fato que não tira a densidade da obra, calcada na relação quase poética entre pai e filha. A princípio conhecemos a rotina de Lionel (Alex Descas), um maquinista que percorre vias com diversos caminhos, porém  no trabalho não há o “livre-arbítrio” encontrado no espaço privado. Em diversas passagens nosso olhar recai melancolicamente sobre o trilho do trem conduzido por Lionel. Trata-se de um processo parecido ao flanar de Charles Baudelaire, já que enquanto espectadores somos tomados pelo prazer poético do passeio, no então desconhecido campo de sons e imagens.

A figura reservada de Lionel, prestes a se aposentar, encontra conforto na juventude da filha Joséphine (Mati Diop). Ambos compartilham poucas palavras durante toda a narrativa, mas será na troca de olhares e gestos que o filme construirá sua base. Prestes a sofrer uma grande transformação, a relação de ambos é acompanhada pelos vizinhos e amigos de trabalho, pessoas com rotinas comuns e que partilham momentos de prazer juntas. Lionel desconfia que ficará sozinho, fator que não interfere radicalmente no amor que nutre, eis um pai que está mais preparado para a independência do que a própria filha.

A relação de Lionel e Joséphine com quem os cerca é marcada por um distanciamento estranho. Tal situação é comprovada pelo silêncio presente nas cenas entre a família e outros personagens. Um colega de trabalho recém aposentado termina por afirmar que Lionel nunca foi de falar muito. O filme também não é de dialogar, mas nos conta muitas coisas, apresentando um grupo de imigrantes em uma Paris sem Torre Eiffel. Ficamos isolados no círculo de Lionel e Joséphine, presos a um cotidiano sem nacionalidade e preconceitos demarcados. O contexto do filme é comum a diversos países, são histórias de pessoas simples perdidas entre a multidão, uma mão-de-obra anônima e esquecida. Temos o maquinista e uma taxista – onde estariam os passageiros?

35 Doses de Rum resgata um tipo de cinema construído primorosamente por Antonioni, Kieslowski e principalmente Yasujiro Ozu, salvo as grandes diferenças. Há muito na obra que não pode ser representado através de palavras, portanto as imagens e a música carregam extrema importância. Destaque para a maravilhosa parte técnica, composta por ótimos enquadramentos e por uma montagem limpa. A trilha-sonora e o leitmotiv musical da banda tindersticks solidificam o filme que comete poucos pecados em seus 100 minutos. Quanto ao significado das 35 doses? Saí embriagado do cinema, eis uma dúvida a ser saciada com a apreciação do Rum ao som da música Nightshift da banda Commodores.

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