fita

Michael Haneke! Ah que sujeito fantástico, capaz de surpreender qualquer espectador com seus filmes, cenas imprevisíveis que quebram a construção narrativa, mergulhando-nos em um estado de angústia e medo. Acompanho seu último A Fita Branca desde a pré-produção, momento no qual me apaixonei pela sinopse que descrevia um ambiente educacional onde situações estranhas ocorreriam. O período anterior a Primeira Guerra Mundial também era um atrativo, visto meu desconhecimento por obras que retratem tal período.

Nos seus longos 144 minutos, a Fita Branca se desenrola lentamente, há uma certa tensão no filme pelo fato de não ficar explícito qual é a principal trama da obra. Existe a eterna dúvida – o que Haneke pretende com isso? Percorremos um vilarejo alemão e o cotidiano de seus habitantes – Barão, Médico, Pastor e Camponeses. Apesar da diferença social, algo permanece para todos, uma educação rígida baseada em atos punitivos e na opressão. Haneke desenvolve um filme que me recordou um outro diretor, magistral no desenvolvimento das relações humanas – Ingmar Bergman.

Desta vez não há o famoso choque, que divide as produções anteriores. Haneke desenvolve uma narrativa próxima a literatura, seu universo é muito parecido com o de Madame Bovary, obra de Gustave Flaubert. Personagens obscuros e angustiados, presos a uma época e espaço, prestes a sofrer uma grande transformação. Porém até o ínicio da guerra temos um núcleo interessante, visto que as mesmas crianças que sofreram o abuso dos pais vivenciarão o conflito armado e até participarão da Segunda Guerra.

Parece que o diretor escolheu cada criança a dedo para trabalhar na produção, a atuação da equipe é fantástica. Destaque para a cena do garotinho e sua irmã quando ele a questiona sobre o que seria a Morte, esta uma das melhores passagens de todo o filme. A fotografia preto e branco tem a mesma qualidade das vistas nos inesquecíveis filmes clássicos. Haneke é seguro, conduz a obra devagar para chegar onde quer. A Fita Branca difere um pouco de suas outras obras já que o fator bizarro desaparece. Os eventos estranhos que acontecem no vilarejo são normais pelo ponto de vista histórico.

Mesmo sendo longo e pesado gostei do filme, apesar de sentir uma pequena frustração. Sempre espero uma surpresa de Michael Haneke, algo que me perturbe, desta vez não será uma cena em especial. A Fita Branca cola na mente pelas diversas relações pessoais e não atitudes isoladas. Haneke amadurece e mostra que pode fazer um filme sem precisar chocar o espectador para produzir a reflexão que deseja. O Austriaco deu uma outra aula de direção, não foi a toa que levou a Palma de Ouro do último Festival de Cannes. Haneke tá bem na Fita!

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