A fila dava voltas na entrada do cinema quando cheguei na bilheteria para pegar meu ingresso para a sessão de Ervas Daninhas, do meu favorito Alain Resnais. O atraso fazia parte do cardápio da mostra e pacientemente aguardava, com ouvidos atentos aos comentários de um grupo de cinéfilos. Todos admiravam o fato do diretor ter um filme (Medos Privados em Lugares Públicos) há mais de dois anos em cartaz no HSBC Belas Artes. A aposta era alta naquele que nunca foi um  representante da Nouvelle Vague mas que dividia as atenções com os principais nomes do movimento e posteriormente do cinema francês como um todo.

Por íncrivel que possa parecer, seria esta a primeira vez que assistiria a uma obra inédita de Alain Resnais no cinema, já que no lançamento de seu penúltimo filme sequer conhecia tal nome e importância. Portanto o grau de ansiedade estava acima do normal e já nas primeiras imagens do filme senti um arrepio e emoção ao ver a produção de um senhor de 87 anos que deveria ser imortal como as próprias obras. Em Ervas Daninhas, Resnais desenvolve uma situação banal para ligar toda a narrativa – será a partir do roubo de um objeto que diversos personagens se encontrarão. O diretor resgata seus principais temas – tempo e memória – com a adoção de flashbacks e uma repetição de cenas que diverte o público.

Há dois pontos fortes no novo filme do diretor, o primeiro é a fotografia perfeita de Eric Gautier, sujeito que na minha humilde opinião mereceria um prêmio de alto nível como reconhecimento pelo trabalho em filmes como Diários de Motocicleta, Medos Privados e Na Natureza Selvagem. Gautier faz um balanceamento de cores magistral, sua fotografia é limpa e bem enquadrada apesar da troca de foco sem corte, recurso que não gosto mas que fica bem no filme. Outro ponto alto está nos cenários de Jacques Saulnier, um antigo colaborador de Resnais que desde O Ano Passado em Marienbad trabalha com o diretor na estruturação dos cenários e design de produção.

Resnais faz um filme com um ambiente moderno e com várias referências, brincadeiras que podem ser interpretadas como críticas ao cinema de massa, é o caso das cenas que figuram como clichê ao som da música tema da Twentieth Century Fox ou na passagem onde inesperadamente o diretor escreve Fim sobre um típico Happy End. O ínicio perdido entre ervas daninhas que brotam sob o solo asfaltado logo nos encaminha para a situação-chave do filme, o roubo, além das belas imagens chama atenção o texto poético conduzido por um narrador que estará presente em todo o filme, descrevendo situações entre o silêncio dos personagens.

Marguerite Muir (Sabine Azéma) é uma dentista em busca de um sapato novo, ao término da compra será assaltada e sua carteira abandonada  pelo ladrão próximo ao carro de Georges Palet (André Dussolier). Georges tem  personalidade estranha e uma imaginação fértil, seu desejo é devolver a carteira a dona, porém se envolve com a situação alimentando o desejo de conhecer aquela que só vira nas fotos de documentos. Assustada com a situação, Marguerite recusa inicialmente o convite de Georges que vai atrás dela. A relação de ambos será completamente estranha, enquanto Marguerite é uma mulher cobiçada, Georges é metido a conquistador.

A trilha-sonora de Mark Snow peca pela proximidade com sua composição anterior, as músicas são parecidas com as de Medos Privados, fato que não atrapalha a condução das cenas. Ervas Daninhas lembra os filmes que o diretor produziu nos anos 80, esquecidos na década perdida. Tecnicamente temos um ótimo filme, mostrando que Resnais voltou a brincar no campo que mais gosta – a montagem e edição. Não é meu filme favorito do diretor, mas será marcante. Ervas Daninhas mostra como algo pode brotar nos ambientes mais inóspitos.

Anúncios