gun-cell-phone

Eis que todos nós portamos um objeto há tanto tempo restrito a um determinado grupo de artistas que dominavam o instrumento além da técnica. Esses dias sentei no ônibus e aguardei a partida, eis que vejo um sujeito com um aparelho celular na mão, brincando com diversas funções entre as quais – a de gravação. Todos sabemos que a camera de um celular não tem lá grande qualidade de imagem mas minha observação recaía sobre a magia que envolvia o sujeito naquele momento.

Entrosado com o aparelho ele rotacionava a camera na tentativa de registrar todo o ambiente que o cercava, desde os bancos novos do ônibus até o desconhecido que rompia ao lado de fora. Não consegui entender a razão de tal ação visto que estavamos parados e a cena poderia ser observada tranquilamente a olho nu.  Entretanto o registro é o mais importante, aquela cena que já era passado estava sendo registrada para o futuro já que o presente pouco importava.

Não satisfeito o sujeito encerrou a gravação e procurou pelo resultado final, perdido entre diversos videos eróticos finalmente sua obra-prima estava completa. Hipnotizado pelo aparelho, ele admirava a cena que poderia ser vista ao vivo. O que seria daquele material? Uma curiosidade para sua família? Ou algo sem importância a ser deletado no futuro? Eu que não apareço no video faço parte do Making Of. O celular e seu poder incontrolável continua matéria para discussão.

Jovens que filmam cenas de sexo, violência e brincadeiras de gosto duvidoso poluem a internet com videos. Todos queremos um registro para o futuro, a imagem de uma esperança de algo que dificilmente será alcançado – a eternidade. Presos na tecnologia esquecemos de viver, há quem deixe de vivenciar o momento para registrá-lo, como se a memória individual perdesse a importância, o que vale é o físico e apresentável. Poderiamos usar a tecnologia com mais aptidão, dar verdadeiro valor as ferramentas.

Há quem esteja boquiaberto com tanta utilidade, hoje temos as ferramentas das mais variadas qualidades distribuídas, o que pesa é a técnica. As previsões para o futuro apontam para a total falta de privacidade do ser, somos constantemente filmados e expostos. O que seria um objeto para facilitar a convivência vira a própria existência. O sujeito trabalha para comprar o celular da moda, o próximo lançamento entre infinidades. Compra-se a posição social pelas posses. Do que vale tanta tecnologia para uma existência vazia? Eis um filme catastrófico.

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