salvegeral

Certo dia a cidade parou. Não era Natal, muito menos feriado. As ruas estavam desertas e tudo parecia abandonado. O caos estava nas manchetes pois na rua imperava o silêncio. O crime organizado era mais forte do que todos nós imaginávamos. Eis que esse momento ficou para trás, tantos fatos novos poluindo uma memória fraca, massacrada diariamente pelas infinitas informações que circulam nos meios de comunicação. O cinema tem o poder de resgatar a história,  o esquecido e evidenciá-lo. Há mais do que uma história em Salve Geral, filme de Sérgio Rezende, há uma sensação de que não há segurança em uma cidade como a nossa.

O filme começa com a descida de um instrumento de corpo robusto mas som delicado – o piano. O objeto que serviria de referencial para Lúcia (Andrea Beltrão) é por diversas vezes menosprezado. O piano, antes simbolo de status é o instrumento de trabalho da personagem que muda para a periferia. Lúcia é professora mas o diploma de Direito rebaixa a docência, mergulhando-a ainda mais no vazio quando a mesma passa a morar em uma região carente, onde os alunos interessados em tal estudo quase inexistem.

Porém o principal desgosto de Lúcia será referente a uma atitude que levará seu filho a prisão. O jovem magoado com a mudança de vida será encaminhado para um presídio, fato que tira a mãe do círculo docente e volta-a a profissão tão rejeitada. As histórias se encaixam facilmente no filme de Rezende, se Lúcia precisa de notícias do filho eis que surge Ruiva (Denise Weinberg) , a mulher que a colocará em contato com o submundo do crime. Ruiva tem papel central na trama já que é alguém que conduzirá a aparente inocência de Lúcia até o nível onde a ética é esquecida. No drama da vida real o amor da mãe é mais forte que qualquer outra escolha.

O roteiro novelesco prejudica certas passagens do filme, destruído por uma trilha-sonora que não consegue dar o ritmo desejado. Lúcia vende o piano para sustentar o sonho de ver o filho livre assim como o próprio corpo na paixão com um dos líderes do PCC. Fato interessante está na retratação do PCC como um movimento político-social com uma premissa de lemas que enobreceria a Revolução Francesa. Mais do que criminosos, temos um grupo de sujeitos que lutam pelo bem-estar da população carcerária, visão interessante porém perigosa.

O final de Salve Geral mergulha o filme na tensão dos piores dias de violência do período, a organização criminosa consegue parar a maior cidade do país. Rezende consegue parar o espectador em sua trama que apesar de apresentar diversas falhas é boa. O filme é limpo, carrega poucos clichês do genêro mas em certos momentos os atores parecem travados e mecânicos. Não existem excessos em Salve Geral, o que há é um filme mediano, uma boa fonte para não deixar que percamos esses tristes dias de nossas memórias.

Abaixo um relato que desenvolvi na época dos ataques do PCC.

São Paulo, 15 de maio de 2006

Dormi em São Paulo e acordei no Iraque!

Era uma Segunda-Feira como qualquer outra. Levantei as 8h00, tomei meu banho e café, porém ao ligar a TV percebi que havia algo estranho na cidade em que moro. Nos noticiários ônibus queimavam e o tumulto já tomava conta de São Paulo. Pensei ser algo normal dentro da violência da nossa cidade, entretanto ao andar na rua percebi o medo nos olhos da população assim como nos da polícia. Todos olhavam para trás e comentavam as ocorrências. Como feras diziam que a solução era atear fogo nas prisões e dezimar a população carcerária. Como dizia meu avô, a melhor defesa é o ataque. Como “donos da verdade” será que devemos fazer isso? Bem acredito que não. Esse pensamento arcaico é o mesmo dos bandidos que matam e que metralham as paredes das nossas instituições de ensino. Porém tudo o que acontece é reflexo da estrutura da nossa sociedade. O que dizer daqueles bandidos que cometeram algum erro perante a sociedade e foram encarcerados como animais em jaulas superlotadas? Tente imaginar você em uma jaula com diversas outras pessoas, alimentando seu ódio contra o sistema e a população que o esqueceu. É fácil condenar esse tipo de atitude, mas é difícil entender o outro lado. Não defendo essas atitudes maldosas, mas acho que através da compreensão podemos ter soluções mais eficazes. A realidade dos presídios só é evidenciada na mídia quando acontecem rebeliões. Por que será? Tentamos esconder a violência e a mesma explodiu como uma bomba preparada. Existem inúmeros fatores corruptos que colaboraram para que isso acontecesse. É fácil culpar o outro quando a culpa é nossa. Hoje fiquei 4 horas dentro de um ônibus chamado Socorro. Será que alguém nos socorrerá? Agora você verá atitudes para aprimoramento da defesa e segurança do Estado. Muitos pensam que reprimir é a solução. Será que esqueceram da educação? Educação Crítica Transformadora, ao invés de alienadora. Você que fica aí sentado, pelo menos ao ler esse e-mail vai refletir um pouco se for inteligente. Cuidado com as reportagens da mídia. Nossa briga não é com os malfeitores e sim com os governantes!

Thiago Barbosa

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