solista

A primeira tomada destaca a prensa, rápida e esmagadora. Rotações aceleradas que escondem a notícia, massificada pelos grandes meios de comunicação, pilhas de informações fabricadas em segundos e distribuidas pelos lares americanos. Na caótica redação, envolvido entre vários jornalistas, há aquele que procura uma matéria nova para sua coluna. Quase sem querer Steve Lopez (Robert Downey Jr.) encontrará o que procura na figura de Nathaniel (Jamie Foxx).

O Solista marca a volta do talentoso Joe Wright (Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação) à direção de um longa-metragem. Contrariamente aos trabalhos anteriores, esse não é um drama histórico e sim uma nova adaptação literária, desta vez baseada em fatos reais. Apesar das diversas diferenças entre os filmes citados, fica evidente que a nova produção carrega marcas do diretor e sua equipe técnica. Wright explora bem o universo dramático entre os dois personagens principais, cenas que poderiam soar como um clichê cinematográfico são bem preparadas.

O filme conta a história de Nathaniel, um morador de rua que certo dia é abordado pelo jornalista Steve Lopez, o fato que atrai Lopez até o mendigo fora um som incompleto, desafinado porém dentro do compasso. A magia está entre a riqueza da música erudita e a pobreza de um cidadão que não tem sequer um abrigo onde morar. Nathaniel apresenta um evidente distúrbio mental durante o diálogo com Lopez, mas nada que comprometa seus conhecimentos musicais. Sensibilizado pela situação do sujeito, Lopez decide colocar seu lado investigativo para funcionar.

O que seria uma simples investigação e produção jornalística transforma-se em amizade pela situação debilitada de ambos. Enquanto Nathaniel apresenta um quadro esquizofrênico que o impede de seguir os estudos e carreira musical, Lopez é um sujeito entregue ao álcool. Entre ambos há a figura genial de Ludwig Van Beethoven, compositor predileto de Nathaniel, exaltado pela bela trilha-sonora a cargo do premiado Dario Marianelli. As ações de Lopez, visam livrar não só Nathaniel da situação de desabrigado como também encaminhar sua carreira musical, perdida nos transtornos do personagem.

Uma das melhores cenas do filme ocorre quando Lopez decide levar Nathaniel no ensaio de uma orquestra. A música misturada com cores “psicodélicas”  é um índicio de que a compreensão/interpretação de um som ganha ares pessoais e complexos de sujeito para sujeito. Nesse momento a matéria já está em segundo plano, o que interessa é a troca de experiências entre dois personagens bem construídos. Jammie Foxx está bem no papel e Robert Downey Jr. mostra que pode ser mais sensível que um Homem de Ferro. Ao final percebemos que a história de Nathaniel serve como alerta para uma sociedade acostumada a desabrigar o talento pelo preconceito.

Da porta para fora existem mais riquezas do que imaginamos. Não é necessário um ouvido absoluto para escutar tantos pedidos de ajuda.

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