Nos braços embalava O Fim e o Princípio, documentário de Eduardo Coutinho, até então uma bela novidade para minha pessoa. Olhava para o DVD e namorava a sinopse, quase que apaixonado por um trabalho desconhecido.  Ao mesmo tempo pensava em como descreveria Cabra Marcado para Morrer nesse espaço,  sobrecarregado de obras e autores estrangeiros. A idéia inicial era versar sobre a relação de Coutinho com o Sertão, suas particularidades, porém o fim que havia planejado morreu logo no principio do documentário.

Coutinho

Em O Fim e o Princípio, Coutinho se embrenha no sertão da Paraíba para filmar o cotidiano de um povoado esquecido, mergulhado na pobreza capital mas com uma riqueza cultural erroneamente desvalorizada. Inicialmente o próprio Coutinho revela que não sabia se aquela iniciativa daria certo, a vontade ganha importância frente ao resultado final. O diretor decide filmar, dar voz aquela população que sequer conhecia, mostrar que no “fim do mundo” há boas histórias sobre o princípio.

Para realizar tamanha façanha, a equipe precisaria de algum guia que conhecesse a região e os habitantes. Em meio a seca, Coutinho conhece Rosa, a mulher que mapearia Araçás e suas melhores histórias. Contudo a participação de Rosa cresce a medida que o documentário avança, ela será junto com o diretor, mediadora dos principais diálogos do filme. O Nordeste tem suas particularidades e o acolhimento a um desconhecido toca todos os espectadores, a câmera que pede licença sempre encontra uma cadeira e a hospitalidade de pessoas que materialmente tem pouco a compartilhar.

Porém elas dividem o mais bonito em suas vidas, histórias de muita luta e sofrimento. A religião sempre é evocada pelos entrevistados que se apegam ao catolicismo para suportar um cotidiano duro e solitário. Coutinho vai atrás dos mais velhos pois sabe que neles encontrará descrições de um país com fome, uma geração que preserva tradições que os mais jovens preferem esquecer. Poucos olham para o futuro, quando o fazem encontram o principal temor – a morte. O que os entrevistados evocam são em sua maioria situações do passado, o princípio anunciado pelo título.

Coutinho se apaixona pelas pessoas e promete voltar para mostrar o resultado das filmagens. Como era de se esperar ele cumpre a palavra, e regressa a Araçás para ver os amigos, sujeitos simples que exalam sinceridade. Não parece que a primeira visita durou apenas um mês, depois de um ano todos o reconhecem, oferecendo a mesma hospitalidade. Mais do que enumerar laços afetivos, a obra de Coutinho é política e social, o registro de um país que tem muito a melhorar. Coutinho é a cara de Araçás, simples ao extremo não teme aparecer em frente a câmera com sua equipe e equipamentos. O fundamental é ser natural e não perder a fala do entrevistado. Ao final temos o registro daquilo que estava escondido aos nossos olhos – existências dignas de reconhecimento.

Com o Fim e o Principio, Coutinho mostra que o Sertão virou mar, sem dúvidas um oceano poético com ondas de perseverança.

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