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Certo dia entrei nas lojas americanas atrás de um CD de música, poderia ser qualquer um, desde que o material me conquistasse. Naquela época o impulso era mais consumista do que musical, porém encontrei dois álbuns que me deixaram em dúvida. O primeiro era um disco do Jota Quest, banda brasileira que acompanhava sempre no rádio. O outro era de uma turma até então desconhecida para mim, o disco era Yield do Pearl Jam. A decisão mudou para sempre minha relação com a música. Sou sincero ao revelar que a escolha ocorreu por conta da bela capa e pela música Do The Evolution, a qual já conhecia através do clipe fabuloso desenvolvido por Todd McFarlane.

Abri o CD e fiquei boquiaberto com a capa de papelão (proposta ambiental e de redução de custo) dentre uma concepção artística com fotos obscuras em preto e branco. Porém o principal impacto veio com a primeira audição, era um som estranho, uma mixagem diferente de todo material que tinha escutado até então. No ínicio não me conformei em ter pago R$17,90 em um disco com uma bela capa e uma boa música. Com o tempo meu sentimento mudou, aos poucos aquela expressão sonora derrubou meus preconceitos.

Todos os álbuns do Pearl Jam anteriores e posteriores a Yield construiram uma admiração não só musical mas ambiental, política e filosófica. A luta pela independência musical foi dura, poucos apoiaram mas a recompensa finalmente chega com Backspacer, primeiro disco da banda sem uma grande gravadora. Em 2005 vivenciei o auge da paixão nos dois shows realizados no Pacaembu, a realização de um sonho que muitos esperavam há tempos, ouvir ao vivo as canções que embalaram diversos momentos e sentimentos. Tudo por conta de uma escolha que nem sabia que estava preparado para fazer.

backspacer

Backspacer chega as lojas com ótimas críticas. Algumas semanas atrás tive meu primeiro contato com o álbum, até então um disco mergulhado em dúvidas e questionamentos. O primeiro single, The Fixer, assustou boa parte dos fãs tradicionais da banda que definiam a composição como sendo muito Pop. Talvez o medo fosse que o Pearl Jam caminhasse para uma produção demasiado comercial, há quem não admita que fazer música seja o ganha pão de Eddie Vedder e Cia.

A primeira coisa que chama atenção em Backspacer é a arte gráfica desenvolvida por Tom Tomorrow, uma série de cartoons com referências pessoais. É perceptível que alguns desenhos remetem a filmes, fotografias e acontecimentos mas o porquê da escolha só Tom e a banda sabem. A mal-entendida parceria com a rede de lojas Target também chama a atenção junto com a produção do primeiro videoclipe da música The Fixer.

Apesar dos poucos mais de 30 minutos formados por músicas curtas, Backspacer é um disco maduro que impulsiona a banda para um outro estado de espírito. Depois de 3 obras com composições politicamente agressivas, chega as lojas um álbum com um tom mais alegre e esperançoso. Como a própria banda definiu, a saída de George W. Bush e a entrada de Barack Obama contribuiu para tal sentimento.

A volta de Brendan O’Brien na produção também elevou a qualidade do álbum que atesta a soberania de Matt Cameron na bateria. O entrosamento entre os músicos bate a porta da perfeição. Cameron está envolvente e com uma pegada firme, as cordas continuam entrosadas e a voz de Eddie rasga as letras no melhor estilo Punk-Rock-Clássico. Abaixo faço comentários pessoais a cada composição tendo por base meu gosto e experiência musical:

Gonna See My Friend (4/5)
Uma música rápida com uma batida firme de Matt Cameron e uma voz rasgada de Eddie Vedder. A primeira demonstração do que está por vir, uma re-edição dos últimos álbuns que começaram com pancadas na abertura.

Got Some (4.5/5)
Não gostei da versão ao vivo apresentada no Tonigh Show. No entanto a mixagem da música derrubou minha opinião, o que antes parecia confuso e muito elaborado ganhou força. Got Some é uma das minhas preferidas pois mantém o ritmo pulsante do álbum, tem um ótima base e um solo de guitarra com encerramento clássico. É uma música moderna mas com referências a outros períodos musicais.

The Fixer (4/5)
O primeiro Single é a terceira música. A banda mantém a pegada com uma música chiclete que rapidamente conquista o ouvinte. Na primeira audição parecia Pop demais mas a música ganha peso como continuação de Got Some.

Johnny Guitar (3.5/5)
A voz rasgada do vocalista ganha itensidade e um efeito de guitarra tornam a música interessante, destaque para a parte final, ápice da composição.

Just Breathe (5/5)
Uma música que poderia fazer parte da trilha-sonora de Into the Wild. Tive a oportunidade de escutar a versão acústica e tive certeza que seria uma das mais bonitas do álbum. Ela ganhou uma bela orquestração com violinos. Minha preferida e a mais bonita do disco.

Amongst The Waves (4.5/5)
Uma música que vai crescendo, tem um ótimo ritmo e um solo clássico do Mike no final que engradecem ainda mais a composição. Aqui começa o ponto alto do disco que encontrará na próxima música seu ápice.

Unthought Known
(5/5)
Esta música passou despercebida na primeira audição, porém tem um caráter melancólico que volta com o tempo. Logo a guitarra ganha a companhia de um piano que traz intensidade dramática a composição. Outro exemplo de crescimento, a música tem diversas variações e um solo de guitarra fantástico no meio. A repetição do refrão, a voz de Eddie Vedder e o final aberto fazem toda a diferença.

Supersonic (3/5)
A bateria dá um bom ritmo a música que sofre pela falta de originalidade. Talvez ela esteja deslocada, seu ritmo agitado lembra o começo do álbum. Classifico como a mais fraca do disco apesar de não ser tão ruim assim.

Speed of Sound (4/5)
Outra música que tive a oportunidade de ouvir a versão acústica. A bateria deu outro ritmo a composição que ganha força pela orquestração com piano e outros instrumentos. Ainda tenho dúvidas se prefiro a versão acústica e sua proximidade com a trilha-sonora de Into the Wild.

Force of Nature (3/5)
A música começa bem mas peca pela previsibilidade dos arranjos. Tem um ótimo solo no final mas ainda não me conquistou.

The End
(4.5/5)
Mais uma que parece um Lado B de Na Natureza Selvagem. The End só fica atrás de Just Breathe, é uma bela música, com vários arranjos que provocam tristeza em quem ouve, sentimento de terminar de escutar um belo álbum. Um final aberto com a esperança de outro grande trabalho no futuro.

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