O anoitecer de uma saga:

Considerações sobre a falta de Luz em Crepúsculo.

Thiago Carvalho Barbosa

Alguns personagens literais adquirem status clássico quando reproduzidos e disseminados entre diversas culturas. Contos e lendas sobrenaturais ajudaram diversos caracteres a avançar pelo tempo com certas mudanças, porém é fato que a essência permaneça, mesmo com a influência da tradição oral e a incorporação de significados pessoais à história. Entre estes personagens temos um com grande destaque na literatura e no cinema – o vampiro. Sede por sangue e dentes afiados apareceram em filmes de Fritz Lang, Francis Ford Coppola e recentemente na direção pouco hábil de Catherine Hardwicke. A tarefa de adaptar uma história para as telas de cinema não é das mais fáceis e quando a mesma é apadrinhada por milhares de fãs cresce o risco de conceber um fiasco.

Em Crepúsculo (Dir. Catherine Hardwicke, 2008) morte e natureza dividem o mesmo espaço desde o princípio da obra, um olhar desatento pode confundir os primeiros planos com os de Na Natureza Selvagem (Dir. Sean Penn, 2007) mesmo que a única coincidência seja o retorno de Kristen Stewart (Bella) para um papel introspectivo. As primeiras cenas de Bella evidenciam como o roteiro é pobre na construção de diálogos visto que a narração em off é usada excessivamente pela personagem durante toda a produção. Bella é uma adolescente reservada que decide passar algum tempo com o pai, sujeito que mora em uma cidade abandonada pela adolescente há muitos anos, alguns conhecidos da família permanecem, porém a relação com os mesmos precisa ser construída do zero.

A escola é o melhor espaço para o desenvolvimento de relacionamentos na fase adolescente. O primeiro dia letivo não seria tão especial se Bella não fosse o centro das atenções do colégio. A beleza da personagem atrai garotos e garotas dispostos a firmar amizade e conhecer a nova aluna. Porém quem seduz Bella é um rapaz com ares misteriosos. Não há suspense quanto a quem integra o grupo de vampiros, o enigma dissolve-se na maquiagem e no tom pálido adotado. O espectador não precisa se esforçar para categorizar os grupos, logo conhecemos o galã Edward Cullen (Robert Pattinson) em uma troca de olhares reproduzida em câmera lenta – destaque da diretora para a primeira flechada do cupido. Assim como o rosto anêmico dos personagens, a obra carece de coloração, o tom desbotado da fotografia não faz jus a uma história que contenha vampiros. Tim Burton e Johnny Depp ficariam vermelhos de vergonha com a falta de cor do filme de Hardwicke.

Não por acaso o par romântico senta lado a lado na aula de Biologia, matéria que descobriremos no decorrer do filme ser a única a integrar o currículo escolar. Infelizmente a ciência de Mendel não explica a origem do vampirismo, novamente a mística concede respostas para assuntos que a razão discrimina. O Google, oráculo do novo milênio, guia a jovem Bella a uma livraria na qual concluirá que Edward prefere furos no pescoço a cortes de cabelo. Paralelamente uma série de assassinatos tenta sem sucesso construir um suspense na narrativa fundada na inesgotável fórmula shakespeariana – Romeu e Julieta.

O temor de se envolver com outra espécie leva Edward a rejeitar verbalmente a amizade da amada. Oras, não seria mais fácil afastar-se ao invés de deixar a preferência evidente? A lógica não funciona e Bella decide convidar o rapaz para sair, um passo moderno se a escolha não fosse uma praia onde o sol é artigo em falta. Para comemorar o bolo de Edward, Bella e as amigas vão as compras, o sonho de consumo volta-se para o vestido do baile de fim de ano, oportunidade ideal para os geeks descarregarem a puberdade. Na volta para casa Bella encontra um beco escuro, local propício para o príncipe salvar a princesa das garras dos vilões. O desfecho da noite é um jantar onde a moça se farta enquanto o rapaz experimenta ler a mente de todos em volta.

O momento da revelação do “grande” segredo de Edward ocorre na floresta, local onde o filme perderá a força que jamais teve, seja no diálogo acanhado entre os dois atores ou no uso de efeitos especiais bizarros. A própria tomada de 360º que poderia ser simples fica travada com o uso abusivo de efeitos artificiais. A corrida do vampiro com Bella nas costas é tão cômica quanto a velocidade do quadrinhesco The Flash nas tardes da Rede Globo nos anos 90. Aos olhos apaixonados o grande momento será quando a jovem descobrir que o amado tem cor diamante à luz do sol, Edward reflete o brilho da gema mais dura na escala de Mohs e não tem receio ao definir-se como o predador mais perigoso dos contos, lendas e fábulas.

Depois de lavar a roupa suja, o filme volta ao clichê do casal cool que domina as atenções de um colégio sem qualquer outro assunto ou atração. Para institucionalizar a união, Edward decide levar a namorada para conhecer a família, um grupo de vampiros semelhante ao Quarteto Fantástico já que cada qual possui um poder sobrenatural peculiar. Para as mulheres fofoqueiras o ideal é que saibam ler a mente e prever o futuro, enquanto aos homens a posição de força e velocidade são a garantia do domínio do gênero. O castelo obscuro dá lugar a uma casa moderna, habitada por vampiros “vegetarianos” e simpáticos. Já Bella tem um pai entregue a bebida e televisão, a figura clássica do Homer Simpson, despreocupado com a própria filha e os eventos que o cercam. Apesar de desempenhar o cargo de policial, o pai da jovem não exercita qualquer autoridade durante todo o filme.

Depois de conhecer a família Omo, todos vão para o campo jogar Baseball, esporte que com outras modalidades é símbolo do orgulho americano. A pirotecnia presente no jogo lembra o Quadribol da série Harry Potter, afinal somos todos estranhos, mas praticamos esportes e temos saúde. Para estragar o momento família entra em campo outro clã de vampiros, justamente os que cometem assassinatos pela cidade, a simples presença de Bella põe em risco a harmonia entre os grupos. A garota chama a atenção de um dos vampiros não participante da dieta da moda, o inicio da perseguição mobiliza todos, principalmente Edward, tomado pelo sentimento de posse – Você é minha agora!

Atraída por uma cilada, Bella cai nos dentes afiados do vampiro maléfico, mas para toda mocinha há um Chapolim Colorado disposto a salvar o dia. Edward não evita que a garota seja mordida, mas consegue salvar a amada quando é posto em prova – conseguirá mordê-la sem sugar todo seu sangue? Os flashbacks de Bella no momento da mordida de Edward parecem constituir um orgasmo sensitivo. Não há relação sexual entre o casal durante o filme e este contato físico é o mais próximo que terão na obra. A recuperação da garota ocorre no hospital da cidade, local onde o principal médico é o vampiro primogênito da família. A volta ao estado de graça vem com o baile e a dança entre Bella e Edward. A consagração do amor é acompanhada por um final fraco como fora todo o filme de Catherine Hardwicke, dispensada para a continuação da saga.

O filme que segundo fãs faria jus ao Best-seller do momento se arrasta para chegar até o fim, comprometido por fracas atuações e um roteiro extremamente pobre. O que Crepúsculo traz a tona é a dúvida de como uma história martelada tantas vezes ainda obtém sucesso entre leitores e espectadores.  Há quem goste do drama mexicano e sua constante repetição, a paixão pelo que mesmo distante tem proximidade conosco. Talvez o morto-vivo sirva para metaforizar uma sociedade que caminha agonizante. Bella já estava morta desde o principio, uma adolescência vazia, escondida entre a beleza do final da tarde e inicio da noite.

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