solo

Ao ler a sinopse de Adeus Solo, filme do diretor Ramin Bahrani, é inevitável a comparação com outra produção – O Gosto de Cereja de Abbas Kiarostami. A coincidência fica mais próxima no desenvolvimento da narrativa durante o filme. Logo no começo conhecemos uma figura enigmática, William, um senhor que vai ao encontro do taxista Solo. O principal pedido de William não diz respeito a rota imediata mas sim a que pretende fazer futuramente. O senhor quer que Solo, um emigrante senegalês, o leve no dia 20 de outubro a um determinado lugar e faz questão de pagar adiantado pelo serviço.

A distância entre a personalidade e o humor dos dois personagens é evidente, enquanto Solo é expansivo e comunicativo, William é retraído e calado. Nessa apresentação percebemos o que ocorrerá em boa parte da narrativa – a tentativa de aproximação e conquista de uma amizade. As poucas palavras que o taxista consegue extrair do outro personagem são suficientes para que ele o leve para a própria casa oferecendo abrigo e companhia já que William carrega apenas o mínimo em uma mala.

Porém em troca da amizade e companhia, Solo quer conhecer William e o motivo pelo qual aparenta tanta tristeza. A afeição que o taxista demonstra não é correspondida por William e o momento no qual ambos parecem mais próximos ainda é distante, quando saem para jogar Sinuca e beber em um bar. O “segredo” de William, nas entrelinhas da narrativa, separa a possibilidade de uma amizade. A decisão e amargura são mais fortes que qualquer esperança. Solo não desiste, envolvendo o outro personagem em seus sonhos, objetivos e família. O taxista é casado com uma mexicana que espera um filho dele, porém há uma outra criança, filha da esposa , com quem ele se dá muito bem.

William não quer uma nova família, sequer amigos, seu único interesse diz respeito a viagem que pretende fazer. Solo fica intrigado com o mistério que envolve o amigo e decide invadir sua privacidade na tentativa de descobrir alguma resposta. O interesse exagerado de Solo faz com que William procure um outro motorista para sua jornada, mas o envolvimento era tão forte que Solo não desiste. Pouco importa se o relacionamento de ambos dará ou não certo, o mais atraente permanece na relação e envolvimento entre personagens tão distintos.

Adeus Solo é uma produção estadunidense, rodado em solo norte-americano, porém com sabor europeu. O filme não cai na armadilha da moda – forçar uma estética multicultural. O enfoque permanece nas relações humanas, uma preocupação com o outro, agora desfigurada pelo individualismo, mas que resiste em muitas pessoas. Os diálogos primam pelas situações simples, quando recebemos o outro com  carinho e respeito. Solo oferece sua mão a William, independente da atitude do mesmo dá pra refletir o quanto aprendemos com quem cruza nossos caminhos.

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