triercrist

Por Marcelo Santoro

Um juri qualquer deu um anti-prêmio a esse sujeito por ter vomitado tal película em cima do público durante determinado Festival. Lembro que comentei aqui no fórum (MKO) sobre esta atitude que me fez bastante feliz. Amo anti-prêmios, bato continência para anti-heróis. Ademais, juris costumam premiar Rockys Uns Lutadores, Titanics, levar criminosos de guerra perdedores à forca e condecorar criminosos de guerra vencedores, têm aversão ao que é novo e detestam que alguém os faça entender de que, via de regra, nada entendem e que outrem já tem faróis ligados e enxergam milhas à frente.

Pode acontecer com Gallos, Triers e afins. Afinal, juris costumam torcer o nariz para pirocas e bocetas também. Mesmo que completa e belamente contextualizadas. Aliás, as pessoas odeiam pirocas e bocetas, entretanto só se fala, vê e downloadeia elas. O ser humano.

Não é o filme para a família. O cinema, aqui, não é a maior diversão. Penso ter lido em algum recanto deste fórum (MKO) que o LVT procurava, com este Anticristo, comungar com o mercado americano. Se foi isso que li, posso muito bem estar enganado, é uma afirmação frouxa de riso. FROUXA.

Estamos pisando o solo do filme de horror: esqueçam tudo o que já foi feito neste sentido – Trier reinventa cada fotograma, toda a mise en Scène e joga um rolo compressor sobre quaisquer nossas expectativas. 1000 T (onde T=tonelada) é a densidade dessa coisa. Um filme físico, de dor física, onde se nasce, morre, esperneia e onde se descobre o quanto somos pequenos. O horror aqui é o horror em sua plenitude, sentido pelo personagem e compartilhado pelos pobres sujeitos que sentam desolados na cadeira do cinema.

Nietzsche já falava (ou escrevia) que é impossível a felicidade humana: somos vítimas da atrocidade da natureza, inclemente em sua fome constante de morte e doença, de nossos medos mais profundos e ancestrais, aqueles que estão gravados, como numa EEPROM, em nossa memória pura. Sofremos com nossas limitações e fraquezas e, em suma, já nascemos sem pai nem mãe.

LVT nos joga, sem clemência, no centro de todo esse horror. Apresenta-nos uma história incrivelmente apavorante e não poupa elementos para nos tirar o chão de sob nossos pés. Puxa-nos uma centena de tapetes. Pra variar, abusa de manipular a audiência, coisa que serve para que mais críticos joguem suas pedritas nele, mas o que é o cinema se não uma grande, imensa manipulação?

Ao fim da película, cheguei a duvidar da minha condição de poder ficar em pé, voltar a caminhar antes de meia hora olhando novamente para o mundo fora da tela. Levei uma surra. Elementos do horror clássico, sídrome do pânico e a morte como ela é – assustadora, feia, suja, pouco asséptica, dura e triste. Muito triste. O drama não é pasteurizado, não se obedecem regras. Reviravoltas.

Vi as cenas mais belas e vislumbrei o fundo de um poço de horror, senti mal estar físico de verdade, duvidei e questionei, fui arrebatado. Tudo isso num só filme.

LVT não brinca e não aceita jogar barato. Não se vende. Toma partido e se lixa para juris. Não quer ser bonito. Ele é como a natureza: pode parecer bonito, entretanto é cruel, mortal e, ao fim e ao cabo, cria e pensa.

Se houver mais alguém por aí assim, levante o dedo!

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