Uma Rosa para o Cinema: Woody Allen e a Homenagem ao Cinema em A Rosa Púrpura do Cairo

Thiago Carvalho Barbosa

 

A abertura do filme A Rosa Púrpura do Cairo (1985) dá indícios da posterior construção que o diretor estadunidense Woody Allen realizaria no decorrer da produção. A música Cheek to Cheek eternizada na cena entre Fred Astaire (1899 – 1987) e Ginger Rogers (1911-1995) no filme Top Hat (Dir. Mark Sandrich,1935) marca com saudosismo a homenagem de Allen ao Cinema e sua História. Paulatinamente a câmera percorre o pôster retrô do então A Rosa Púrpura do Cairo, titulo da obra que a personagem Cecília (Mia Farrow) admira hipnoticamente. Eis a primeira metalinguagem fabricada pelo diretor, o nome do filme está dentro da própria obra.

O barulho provocado pela queda de um objeto tira Cecília de sua condição contemplativa, a volta da personagem para a realidade parece frustrante, mas na rotina de trabalho ela continua expressando sua paixão pelo cinema através dos diálogos com a irmã (Stephanie Farrow). Ambas são garçonetes de um restaurante, porém Cecília é marcada pela desatenção sendo constantemente alvo das reclamações de clientes e patrão. Depois de apresentar o passatempo e o ambiente de trabalho de sua personagem chave, Allen ruma para o ambiente doméstico. Conhecemos o marido de Cecília, Monk (Danny Aiello), um sujeito desempregado que joga dados com os amigos. A grande depressão é a desculpa para a preguiça de Monk sustentado pela própria esposa.

Monk compartilha uma visão ingênua e preguiçosa do período, a qual acreditava que o país daria a “volta por cima” sem qualquer esforço ou intervenção do Estado e sociedade. Porém o que entristece Cecília é o fato do marido não partilhar sua admiração pelo cinema, em nenhuma das sessões, mesmo quando a esposa fica desempregada ele a acompanha. Monk prefere ficar em casa e receber a visita de uma amiga, ambos são surpreendidos por Cecília que classifica tal encontro como uma traição do marido. A personagem arruma as malas e decide sair de casa, mas não encontra abrigo além das casas de prostituição da época. A volta para casa parece representar a dependência do feminino ao masculino, principalmente no casamento.

Incomodado com a dispersão da empregada, o patrão demite a garçonete. No decorrer do filme a personagem de Mia Farrow assiste diversas vezes o mesmo filme – A Rosa Púrpura do Cairo. Mais do que um lazer, o cinema vira uma fuga da realidade para Cecília, personagem romântica e ingênua. Na cena que marca um dos ápices do filme, Tom Baxter (Jeff Daniels), personagem do filme que Cecília tanto idolatra olha para a espectadora e decide sair do filme. Woody Allen contempla duas produções distintas, sua homenagem ao cinema é feita através do filme visto por Cecília, uma referência explicita ao gênero clássico pela tonalidade preto-e-branco e o formato Fullscreen e o filme que conduz que contrariamente é colorido e Widescreen. Mas o clássico se consolida quando observamos a narrativa e como os demais personagens se portam quando Tom Baxter foge da película. O desespero reside na quebra da linearidade do filme – como continuar as cenas sem Tom Baxter que fugiu da “ficção” para a “realidade”?

Uma espectadora da sala reclama – Eu quero o mesmo filme da semana passada, senão que sentido tem a vida? Uma posição conservadora que teme qualquer mudança como a dos demais espectadores acostumados à linguagem clássica. Enquanto isso Tom e Cecília se apaixonam em uma atmosfera platônica, a espectadora que se enamora pelo personagem que admira. Ambos iniciam uma relação, se beijam, mas o desenvolvimento de tal fica comprometida pelo casamento de Cecília com Monk. Os programas entre Cecília e Tom caracterizam a aventura, situação inexistente na relação com Monk que algumas vezes ameaça a própria esposa de agressão. Mesmo saindo do filme, Tom acredita que o funcionamento do universo real possui semelhanças com o ambiente ficcional, ao beijar Cecília o personagem espera pelo Fade Out da cena, recurso constantemente empregado durante a existência do Código Hays.

Allen brinca com o sistema político e com a religião durante o filme, dentre os atores que esperam o retorno de Tom Baxter, há um que deseja seguir o mesmo caminho saindo da prisão (filme), logo é taxado de comunista pelos demais. Para outros a palavra Deus seria sinônimo de roteirista, a pessoa que construiu a narrativa e que deu origem ao filme. Porém o filme fica mais interessante com a chegada do ator, Gil Sheppard (Jeff Daniels), que dá vida a Tom Baxter nas telas de cinema. Ao ver Gil em um café, Cecília se dirige ao rapaz achando que conversa com Tom, logo o ator descobre que a garota pode ajudá-lo a capturar o caractere e convencê-lo a voltar para a tela de cinema.

O triângulo amoroso formado por Cecília, Tom e Gil é bem desenvolvido por Allen, já que cabe a moça não só escolher entre dois rapazes, mas também entre a realidade e a ficção. Os atores do filme se rebelam, o que interpretava um garçom decide sapatear para demonstrar sua habilidade e revolta contra o papel que lhe fora destinado. Tom decide levar Cecília para dentro do filme e apresentar seu universo ficcional como uma última tentativa de conquistar a moça. Entretanto o universo ficcional clássico é enfadonho por ser linear e permeado por luxo, não existindo desafios ou algo que perturbe a mente humana. Na volta Cecília encara o grande desafio de escolher entre Tom e Gil, mesmo com o casamento em vigência.

Decidida, a personagem novamente arruma as malas disposta a encontrar Gil, mas para sua decepção o mesmo regressa para Hollywood, terra dos sonhos e ilusões. Desapontada Cecília volta a se refugiar no cinema, dessa vez para assistir ao filme de Fred Astaire e Ginger Rogers. Como num ciclo vicioso, Allen volta ao começo da obra com sua personagem e homenagem. Mas não há apenas o som de Cheek to Cheek, a imagem de Fred e Ginger bailando encerra uma das melhores metalinguagens produzidas por um cineasta. No final Cecília fica com sua grande paixão – o Cinema.

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