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Sei que já usei o cenário do metrô em um outro post, mas tenho de voltar a ele. Sem sombra de dúvida, é um prato cheio pra qualquer fofoqueiro, bisbilhoteiro, curioso, mexeriqueiro, contador de casos. Eu, eu, eu, eu, eu.

Bem mais do que o livro, o MP3 (iPod, MP4, 5, 7, sei lá) é o objeto de maior sucesso e visibilidade nos vagões. É incrível. Todos tem. Se o aparelho não está na mão, prestes a ser pressionado pelo dedão determinado a trocar de música, está no bolso, na bolsa, na mochila. Mesmo omitido por um blusão ou um terno, os fones de ouvido denunciam: ele ou ela TEM MP3.

Na última terça-feira, dia 8 de setembro, como de praxe, entrei no último vagão da Estação Guilhermina na ânsia de encontrar um grande vazio no corredor. Tive sorte. Quer dizer… Duas estações depois, na Penha, entrou uma garota de olhos fundos e braços finos, com um semblante ‘down’, despontando o seu exagerado fone de ouvido. O troço era grande. Não era de DJ, mas dava para escutar em alto e bom som qualquer discotecagem.

Olhei para a biografia do Tom Jobim sobre a minha mão e pensei “já era”. Já era mesmo. Daquele redondo saiam as mais belas poesias prosaicas, todas desenhadas com uma harmonia que se desdobrava em melodias sutis e refinadas: “Se é pra ir descendo até o chão, eu vou fazer o chão chão”. Que primor.

Não contente, colocou um “black music”. Pensa a boba – e zilhões de bobos por aí – que o ritmo está isento da mediocridade musical só por ser obra dos norte-americanos. A merda é global. Para provar, leiam a tradução de um trecho da sofisticada música da cantora Rihanna, Umbrella: “Você pode ficar embaixo do meu guarda-chuva / ella, ella, eh eh eh / Embaixo do meu guarda-chuva / ella, ella, eh eh eh”. Como diz a mãe da minha namorada, musicalmente bem servida, graças ao santo cristo Tom Jobim, “que belezura”.

Belém, Bresser-Móoca, Estação Brás. Fodeu! Como eu e Murphy recentemente firmamos uma parceria dos diabos (espero que termine em breve), a respeitosa galera me empurrou imaginem para onde? Meu braço, sem apoio, foi buscar refúgio no mesmo ferro onde, a três centímetro, estava a mão da garota musical. Eu engoli, quer dizer, ouvi a seco e resolvi dar um desconto para a batucada que irradiava daquele ouvido desprotegido dos altos decibéis. Afinal, terça foi um dia de muita chuva, de muita agitação no metrô. Não dava pra fazer muita coisa.

Estação Sé. Que alívio. Ela para um lado; eu para o outro.

Saquei meu MP3, com coleções intermináveis de sons brasileiros, de “Chega de Saudade” a “Para Lennon e Mc’Cartney”, lindamente cantada por Milton Nascimento, apertei o “play” aleatoriamente e desenrolei os fios do fone com velocidade. O do lado direito, sem justificativa, parou de funcionar. Nem vácuo de som saia. “Ok, tudo bem, escuto de um lado só”. Bem ao meu lado, vejo outra menina portando o mesmo aparelho. Dos dois fones médios dela, ouvia-se claramente “Você não vale nada, mas eu gosto de você / Tudo o que eu queria era saber porquê”.

Da Sé até o Paraíso ainda tinha uma boa caminhada.

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