herzog

Em entrevista para a Folha de São Paulo, o experiente diretor alemão Werner Herzog polemizou – Assisto no máximo dois filmes por ano. Não acreditei mas pensando com calma talvez tal afirmação seja verdadeira. No universo caótico de Herzog tudo é possível, a coragem e criatividade deste alemão ultrapassa qualquer obstáculo. A própria história do diretor é permeada por altos e baixos. Filho de croatas, Herzog era um sujeito pobre que na adolescência chegou a dividir o apartamento com Klaus Kinski, ator problemático que trabalharia em diversos filmes do cineasta.

A relação de Kinski com Herzog é fantástica. No documentário Meu Melhor Inimigo, o diretor apresenta sua versão para as diversas brigas nos bastidores das principais produções que trabalharam juntos. O difícil é identificar qual dos dois era mais insano. Kinski era o tipo de ator que levava o personagem tão a sério que colocava a própria vida em risco. Herzog não tinha limites, em Fitzcarraldo fez com que centenas de índios arrastassem um barco de 160 toneladas em plena selva amazônica.

A dupla explosiva não admitia, mas gostava de trabalhar junta. Herzog era o pavio, Kinski o fogo. O diretor sabia que ao suportar as loucuras do ator poderia extrair o máximo dos seus personagens. Kinski era incontrolável, não aceitava ser questionado porém era o preferido de Herzog. Ambos faziam cinema com a faca nos dentes, poucos recursos, muita criatividade e amor pela profissão.

Admiro Herzog pela insanidade porém prefiro categorizar sua atitude frente ao cinema como ousadia. O que dizer de Coração de Cristal, filme onde os atores trabalham hipnotizados ou Também os Anões Começaram Pequenos, protagonizado por Anões? Herzog também ousa como documentarista ao explorar a natureza humana reunindo as gravações de Timothy Treadwell,  sujeito que tinha como objetivo a preservação dos ursos no Alasca. Em Encounters at the End of the World, o diretor choca uma bióloga ao questionar sobre uma possível tendência dos pinguins à homossexualidade e solidão.

A desconstrução realizada por Herzog ajuda o espectador a refletir sobre diversos assuntos. Tudo é possível através das lentes do diretor, a parte técnica se perde entre a estranheza dos temas abordados. Porém isso não significa que ela não seja importante, pelo contrário, Herzog conduz bem seus filmes. Tanto Lições da Escuridão quanto Coração de Cristal são idéias originais com lindos planos fotográficos. Em Aguirre, a Cólera dos Deuses, o diretor surpreende o espectador com enquadramentos e ângulos que enaltecem o caráter heróico do personagem interpretado por Klaus Kinski.

Esse ano Herzog volta as manchetes e pauta dos cinéfilos. Pela primeira vez um cineasta disputa o Leão de Ouro do Festival de Veneza com dois filmes. O fato estranho só poderia ocorrer com o diretor mais próximo desse adjetivo. A consolidação da loucura viria com o anúncio do empate entre os dois filmes na escolha dos jurados. Seria a coroação de Werner Herzog e de todos os loucos que o admiram.

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