Spike Lee

Assistir “Faça a Coisa Certa” é um golpe certeiro na boca do estômago. Responsável por impulsionar a carreira do cineasta Spike Lee, o filme, sobretudo nas cenas finais, explora com radicalidade o conflito racial existente em um gueto específico localizado nos Estados Unidos, habitado por uma população majoritariamente negra e marginalizada.

As amenidades colocadas na tela pelo diretor logo se esfacelam quando fica nítida a linha de divisão entre os moradores do bairro e os “brancos”. É nesse ponto que o filme, além do seu caráter narrativo, assume que também é uma poderosa ferramenta ideológica e denuncista, capaz de gerar comportamentos polarizados no público que testemunha a sequência de embates raciais. Ou seja, da mesma forma que tem gente que valoriza e legitima a opinião de Spike Lee, há outros que acusam a produção de fascista.

Para facilitar as coisas, vou contar o trecho-chave do filme tentando respeitar uma certa parcialidade… Ao som de Public Enemies, um grupo de negros invade um restaurante italiano pedindo para que o dono fixe, na parede do local, fotografias de negros, substituindo as imagens das celebridades brancas. O dono do estabelecimento nega veementemente o pedido e pede para que o grupo diminua o volume do aparelho de som. O pedido é negado, dando sequência a uma série de desentendimentos. No final do conflito, Sal arrebenta o rádio do grupo, que revida tal atitude com socos e pontapés. Resultado: chega a polícia e mata um negro do grupo. E, além de ter apanhado, Sal ainda se vê vítima de um ataque organizado pelos moradores do bairro contra o seu restaurante. Para encerrar, tudo acaba em incêndio.

Parece descritivo, mas o resumo acima não é nada ingênuo. Nele, dá para perceber (preste atenção nos advérbios) que existe uma posição assumida, uma reinterpretação da cena, que, ao contrário da minha proposta, é parcial.

Spike Lee, assim como a sinopse da cena descrita acima, parcializou a sua produção, cutucando com dedo de ferro diversas feridas sociais super-expostas. É por isso, e também pelo seu denuncismo unilateral e explosivo, que muitos críticos e espectadores afirmam que seus filmes, principalmente este em questão, retratam um racismo às avessas, em que os negros, agora com poder, são capazes de reagir, mas usando a maneira menos apropriada, a violência.

Mas é claro, o filme possui uma infinidade de pontos positivos. Só que já deu o meu espaço. Rs…

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