CANNES-CINEMA-GOLDEN PALM-VON TRIER-BJORK

Dançando no Escuro é minha visão de um filme americano. Com a língua afiada, Trier começa o documentário Os 100 Olhos de Lars Von Trier relatando o desenvolvimento de um musical completamente distante dos padrões “clássicos”. A resistência a pena de morte leva-o a definir a sociedade americana como uma nação fraca que precisa matar os próprios membros para preservar o conceito de moral. – A América é um mito! Apesar do filme ser ambientado nos EUA, Trier prefere realizá-lo na Suécia, já que não teria “estômago” suficiente para pisar em solo americano.

Apesar da crítica social, o documentário apresenta um outro diretor, um sujeito mais comedido nos bastidores das gravações. Talvez o erro do Making Of resida na exclusividade dada as sensações de Trier, esquecendo sua equipe técnica e artística. Quem não gostaria de ouvir Björk e entender os motivos de seu desaparecimento súbito do set de filmagem? A descrição da relação com a cantora/atriz fica por conta do próprio diretor – Minha relação com Björk parece um casamento. Ela começa com muitos sentimentos e criatividade. Vai, vai, vai e acaba em luta pelo poder.

O estranhamento entre ambos traz uma interessante revelação – Sinto-me menos complexado quando dirijo homens. Eu sempre tenho mais dificuldades de dirigir mulheres. E temos outra surpresa daquele que só esperaríamos um cargo clássico de diretor – Quando eu seguro a câmera, também me sinto um ator e me torno espectador ao mesmo tempo que converso com os atores. A proximidade com os atores continua influenciando nas decisões de Lars Von Trier. Catherine Deneuve que pedira um pequeno papel torna-se colaboradora ao apresentar algumas idéias para o diretor.

Por pouco Dançando no escuro não entra para a lista de fracassos de Trier. Björk que posteriormente receberia a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes jogou tudo pro alto nos momentos finais. A cantora rasgou a blusa que tanto odiava e fugiu do set, fato que causou raiva, frustração e paralisia em toda a equipe. Deneuve caminhava cabisbaixa enquanto Trier conversava com seus assistentes sobre uma possível solução – Talvez um dublê com uma máscara. Mas como editar o final dessa forma? Depois de construir uma personagem tão expressiva.

Trier recusou a idéia e quando estava quase entregando os pontos, recebeu a notícia da volta de sua principal atriz. Finalizou a produção e teve a certeza que Björk nunca mais pisaria num set de filmagem. Como um carrasco, o diretor extraíra o máximo dela e do filme. Selma, a personagem cega, é quem nos prende. Sua ingenuidade causa fúria ao mesmo tempo que comove. Vendo o filme dá pra perceber que a principal cegueira de Selma era a paixão pelo filho. Trier soube explorar a personagem e criar diversos picos emotivos durante todo o filme. Ao final deu o tiro de misericórdia no espectador para lembrar quem são os verdadeiros cegos.

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