trier

Nunca mais vou trabalhar com um diretor insano! A frase expelida por Ben Gazzara nos bastidores de Dogville exprime bem como é o convívio com Lars Von Trier. Aparentemente normal no set de filmagem, Trier é uma pessoa complicada e confusa. Um bom exemplo está no documentário Dogville Confessions, um apanhado dos dias turbulentos no set de filmagem de Dogville.

Lauren Bacall desconfiou e estava certa – Trier não gosta de mim! Nicole Kidman se sentiu magoada – Ele exige muito de mim! Ao final de uma cena de estupro o diretor abraça carinhosamente a atriz, reconhecendo sua entrega. Porém todos estavam confusos – O que ele quer? O que pretende com tudo isso? Stellan Skarsgård não gosta de improvisar e rebate o diretor – O que você quer? Não consigo improvisar em outra língua. Mas o pior embate parece ter ocorrido com Paul Bettany, o ator não gosta da interrupção de uma de suas cenas, olha com raiva para o diretor e  infantilmente diz – Estou furioso com você ! Uma dentre várias demonstrações dos atritos no set. Trier interrompe a cena e discretamente vai conversar com o ator – Você está sendo bem pago, não é verdade?

O que parecia perigoso foi bem explorado, Trier foi esperto ao criar uma sala onde os atores liberariam a tensão causada por seu filme. O próprio diretor desconfiava do resultado final da produção – No ínicio parecia uma boa idéia, mas não é fácil trabalhar com 20 atores em cena. O isolamento num galpão perdido na Suécia causou mais tensão, todos esperavam pela hora de fugir daquele lugar. O cenário simples parecia uma prisão sem grades para todos aqueles atores. Uma sociedade claustrofóbica, onde qualquer resquício de privacidade tinha ido pelos ares.

Apesar das dificuldades e do jeito retraído e confuso, Trier soube conversar com os atores. Porém a principal qualidade que observei – ele soube ouvir! Os atores são como colaboradores, palpitam a todo instante e o diretor apropria-se do que julga bom e viável. Nesse ponto, Trier confunde a equipe e tira todo o conforto de um roteiro fechado e imutável. Ao final todos se curvam aos seus defeitos observando quanto fora extraordinário trabalhar em tal produção.

Assistindo Dogville, não achei fantástico o fato do cenário praticamente  inexistir. O que me impressionou foi o resultado da idéia. Ao eliminar as paredes, Trier foca toda a ação nas relações humanas de um micro-cosmo (crítica do macro-cosmo) violento e desleal. Sofremos com uma sociedade fadada ao fracasso, egoísta, hipócrita e punitiva. No final ao dar a personagem de Nicole Kidman a chance de escolha do destino dos demais, Trier joga na cara do espectador a sua sede por vingança.  Michael Haneke voltaria a fita mas  a mensagem era outra – Trier preferiu demonstrar que queremos e fazemos a violência. Não existem bandidos ou mocinhos, somos parte daquela sociedade. Nascemos em Dogville!

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