sorin

Se o diretor argentino Carlos Sorin revelasse a paixão por Bergman e Antonioni confirmaria meus sentimentos ao assistir A Janela. O filme é dotado de uma sutileza silenciosa que lembra certos trabalhos dos diretores citados. Porém prefiro exaltar a maestria de Sorin na condução de uma obra um tanto poética que caminha pelos últimos dias de um personagem idoso que com esforço tenta preservar a própria vida.

O filme não é uma “Obra de Arte Completa” porém consegue cativar pela sensibilidade de Antonio, um senhor que aguarda ansioso a visita do filho pianista. Em algumas cenas é perceptível o badalar do relógio que  como uma ampulheta parece anunciar as últimas horas do personagem. Nesse universo delicado há a presença de duas empregadas que zelam pela saúde de Antonio. Há também quem zele pela saúde do velho piano abandonado na sala.

Um afinador conserta o instrumento enquanto boa parte do filme se desenvolve. As notas fora do tom começam a se encaixar e numa cena maravilhosa, Antonio consegue escapar da própria prisão ao caminhar sozinho pelo campo apenas ao som da brisa. Durante a cena lembrei dos quadros de Van Gogh, porém quando o personagem desmaia, o pintor a ser referenciado é Paul Cézanne que depois de trabalhar em campo aberto e enfrentar uma forte tempestade viria a falecer em 22 de outubro de 1906.

Talvez o título seja uma homenagem ao quadro de Salvador Dalí – La Muchacha em La Ventana (105 x 74, 5 cm, Óleo sobre cartão pedra, 1925). Apesar do filme nos apresentar um muchacho, a admiração ao explorar a vista pela janela parece a mesma entre a moça de Dalí e o personagem de Sorin. Ambos parecem admirar a natureza e sua beleza, presos no universo doméstico. A grande diferença está na posição de repouso, enquanto a personagem de Dalí ficará eternamente estática, o de Sorin caminhou para repousar na eternidade.

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