contador

A primeira coisa que vi dela, foram os sapatos!‘ Com esta frase tem início uma relação que mudaria a vida de Roberto Carlos Ramos, sujeito com uma sofrível trajetória de vida retratada por Luiz Villaça em O Contador de Histórias.

O Sofrível diz respeito a pobreza e posteriores passagens do garoto pela FEBEM, entregue pela própria mãe, que acreditara na falsa promessa de um futuro melhor para o filho. É perceptível que já na década de 70 algumas unidades da “Fundação do Bem-Estar do Menor” já sofriam com a falta de planejamento pedagógico e com péssimos profissionais.

Porém alguém contribuiria para que Robertô tivesse a oportunidade merecida. Marguerite Duvas, pedagoga francesa com pesquisas no Brasil, conhece o garoto e desenvolve uma relação de extrema proximidade com ele. A troca entre os dois é intensa, no começo Marguerite e seu gravador fazem o papel do típico pesquisador, propenso a extrair o máximo de seu objeto de estudo.

Logo o gravador ganha outro significado. Ao mesmo tempo em que guarda as memórias de Robertô, o aparelho parece projetar um futuro para o garoto que se tornaria um dos 10 maiores contadores de histórias do mundo. No ato de contar e fantasiar a própria história, Robertô consegue escapar da infância permeada de fugas e envolvimentos com outros jovens que infelizmente não tiveram uma oportunidade similar.

Apesar da bela direção de arte e atuação convincente da portuguesa-afrancesada Maria Medeiros, falta algo ao filme. Não seria tarefa fácil contar toda a história de Roberto Carlos e o período escolhido para tal é sua infância, porém no trecho final, o garoto é arremessado para a idade adulta onde num momento simbólico mas desconectado cinematograficamente sai da França e volta a encontrar a própria mãe na mesma situação no Brasil.

Mais do que um trabalho pedagógico, Marguerite exerce a função de mãe e/ou protetora do garoto, abandonado por família e sociedade, assim como muitos o ainda são. A história de Roberto serve de exemplo, conta-nos que esses jovens tem potencial, precisam de ajuda, carinho, atenção e principalmente – educação. O que diferencia a Pedagoga francesa durante todo o filme é o humanismo com certas doses de ingenuidade. Ela não teve medo de errar, acertou em cheio quando procurou os olhos de um garoto de cabeça baixa.

Anúncios