inimigos

Podem me chamar de chato, mala, cabeção, do contra, mas Inimigos Públicos não me desceu muito bem. Admito que a narrativa funciona, sobretudo, pela figura peculiar que foi o John Dillinger, certamente o bandido mais famoso da era pós-depressão econômica dos Estados Unidos. O argumento é ótimo. É fabuloso ver um filme sobre o gângster. Só que a execução ficou devendo, e muito.

Vemos um Johnny Depp apático, sem vontade de atuar, burocrático demais. Um saco. Completamente diferente de suas atuações anteriores, de onde se vê um ator que se entrega por completo à obra, em “Inimigos Públicos” o camaleônico não passa nenhum sinal de emoção, de medo, de sentimento de vingança. Cadê as caras e bocas – sem exageros, claro? E quando chora, não há verdade alguma. Muito estranho. Quem assistiu “Scarface”, “O Gângster”, dois filmes super populares calcados no mesmo gênero, vai estranhar.

Mas havia um sopro de esperança. Dois na verdade: Marion Cotillard (Piaf) e o batman mais legal da franquia (olha eu esteriotipando), Christian Bale. Pena que o sopro foi assoprado, sem dó. Ambos foram picados pelo vírus Johnny Depp – John Dillinger e se mostraram também mega apáticos no filme, o que comprova que a atuação foi o maior fracasso. Só faltava o Johnny Depp ganhar o Oscar de Melhor Ator. Hahaha. Vou queimar minha língua. Pensando bem, não. É a Academia que vai se queimar. Mas aí já são outros quinhentos, seiscentos, setecentos e coisa e tal.

No final da história, chego a conclusão de quem vacilou na produção foi o próprio Michael Mann, que não soube imprimir sentimento em seus personagens, embora tenha demonstrado ótimos pontos neste filme.

Eu não vivo só de ponto de vista negativo não, gente. Posso ser mala, chatão, cabeçudo, mas dá pra brincar de imparcialidade.

O achado deste filme, talvez a maior preciosidade, foi retratar a fragilidade do Bureau de Investigação, futuramente o FBI, por meio de sequências repletas de saborosas elipses. Do tipo, um olhar, meia palavra, um gesto já denunciava o erro do policial. E outra. Sempre vemos nos filmes por aí a habilidade de atuação do FBI. Mas ok, os caras sempre foram bons assim? Pois é, “Inimigos Públicos” mostra um cenário policial muito curioso e totalmente controverso como é o de hoje, onde os bandidos são encontrados através de satélite e essas coisas todas que o “Jogo de Espiões” mostra.

Michael Mann ousou em mostrar o filme sob o ponto de vista de uma câmera comum, com os planos que nos acostumamos a ver, mas cruzando com os mais diferentes ângulos captados por uma câmera móvel. E móvel até demais, pois, em muitas cenas, perdemos os personagens de vista e ficamos confusos com os trezentos mil takes exibidos na tela em menos de um minuto. Mas mesmo confuso, a montagem traduz as sensações dos personagens. Isso é compreensível; só não a atuação.

Ver “Inimigos Públicos” no cinema é um dilema. Se eu fosse você, esperaria o filme ir para as locadoras, assim sairá bem mais barato. Mas não o alugue sozinho. Leve junto, pelo menos, Scarface (Al Pacino está demais). Ah, e para não sofrer com as comparações, assista “Inimigos” primeiro.

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