caetano

Fernando Grostein é menino de tudo. Não pelo profissionalismo, claro, mas pelos gestos e características físicas. Despojado no andar, oscilante no discurso, ele tem jeitão de garoto mesmo. Mas isso se desconstrói rapidamente quando o seu primeiro trabalho de grande repercussão, “Coração Vagabundo”, começa a rodar. Essa foi a minha percepção. Logo após a pré-estreia gratuita no Cine Bombril, na última terça-feira, dia 21, percebi que todos da sala compartilhavam da mesma opinião.

Para a produção do documentário, Fernando acompanhou a turnê “A Foreign Sound”, de Caetano Veloso, com o objetivo puro e simples de registrar os momentos intimistas do cantor, compositor, escritor… Ele mesmo disse que suas pretensões não iam além disso. Mas foram.

Descartou o caminho ‘burrocrático’ de contar didaticamente quem é e que representa Caetano Veloso para revelar algo intrínseco tanto à turnê como à globalização: o olhar de um estrangeiro fora de sua casa.

O ato mais corajoso do filme é que, em “Coração Vagabundo”, Caetano Veloso não é o protagonista totalitário. Ele, como figura artística, não é o centro de toda a história, embora seja o condutor de toda a narrativa. Quem assume tal papel é o olhar dele, e não ele em si.

Sim, sua história pessoal e profissional é contada, mas tudo sob a ótica de seu olhar, de sua opinião sobre o mundo, sobre o Brasil, sobre a música, sobre seus desejos e infelicidades, sobre os ambientes que o cercam (Nova York e Japão), sobre suas experiências, seus projetos, enfim…

E por escolher essa linha menos didática e “jabacenta”, Fernando, meio sem querer – e ele assume isso sem nenhum problema algum -, desmistificou e litaralmente desnudou Caetano Veloso, visto por muitos jovens sobretudo como um cara rançoso, chato, hermético e maluco demais.

O mais interessante de tudo isso é que Fernando não tinha noção do que Caetano Veloso representa para a música brasileira. “Eu cheguei pra ele dizendo que conhecia só algumas coisas sobre a música dele, mas que não tinha estudado nada sobre”. Foi essa percepção, longe da ignorância, que deu o tom “descobridor” do filme, claramente sobressaltado pela qualidade técnica de Fernando, que buscou significados em cada quadro captado.

“Coração Vagabundo” estreou hoje, dia 24 de julho, nos cinemas, e é obrigatório para os cinéfilos de plantão, fãs ou não de Caetano Veloso.

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