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A comparação parece uma atividade inerente ao Homem. Ao olhar para o outro nosso cérebro procura similaridades e o desconhecido tende a se aproximar de alguma pessoa presente na memória individual e/ou coletiva. Todos já sofremos com as comparações que tendem a produzir apelidos e situações por vezes constrangedoras para quem não é a pessoa que o outro procura.

Estes dias vi Alain Resnais no Paraíso. Não foi um encontro espiritual,  já que o Paraíso ao qual me refiro é o nome de uma estação de Metrô paulista, diariamente tão cheia que ganha ares infernais.  O cabelo branco algodão e a idade avançada denunciavam a proximidade daquele sujeito com meu diretor favorito. A passos silenciosos Resnais chegou e aguardou ao meu lado a parada do trem. Estava escutando música e ao ver a cena senti falta da minha câmera, um registro falso de uma mente criativa.

Sentamos frente a frente e percebi que ele carregava um envelope do Hospital do Coração. Seria um exame de rotina ou complicações da idade? Pensei no quanto gosto de Resnais, sua morte causaria um grande impacto para mim. A existência física produz a esperança por novos filmes, porém percebo que seu pensamento é imortal. Quantos entre nós não caminham mortos, assassinados por um sistema político-econômico-socio-cultural que condiciona o sujeito ao mecanicismo de Tempos Modernos?

Na imagem do outro projetei minha paixão pela sétima arte. Resnais desceu na São Bento enquanto fiz meu tradicional caminho até a Luz.

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