azul

Quanta injustiça cometera com A Liberdade é Azul (1993). Decidi rever o primeiro filme da Trilogia das Cores de Krzysztof Kieslowski. O projeto nasceu como uma homenagem aos ideais da Revolução Francesa. Cada filme tem sua peculiaridade cromática e histórias que no final caminham para a mesma direção. Não tenho dúvidas de que seja a obra mais conhecida do grande mestre polônes, porém minha preferida é anterior ao último suspiro artístico do diretor. Prefiro A Dupla Vida de Veronique (1991) por encontrar todas as características autorais de Kieslowski na mesma obra.

Parece que sanei esta ingenuidade quando percebi a beleza do filme estrelado por Juliette Binoche. A atriz dá um baile na interpretação de uma personagem angustiada pela morte do marido e da filha. Naquela que ainda é agraciada como o melhor papel de Juliette, ela não teme  o atrito de sua mão contra a parede em uma cena nada fictícia. A entrega é mútua, já que o perfeccionismo de Kieslowski faz com que estude diversas vezes uma mesma cena – o encontro do torrão de açúcar com o café tem um tempo determinado que não pode ser ultrapassado.

A fotografia é explêndida ao levar o azul para a iluminação e objetos cenográficos. De uma janela temperada aos mergulhos na piscina, o azul toma conta dos cenários durante todo o filme. Um cuidado que emerge na trilha-sonora de Zbigniew Preisner, compositor preferido de Kieslowski. Van den Budenmayer, pseudônimo de Preisner, ganha novamente papel vital na obra, difícil imaginar o filme sem o compositor.

A flauta parece um assovio triste enquanto o coral um sussurro angustiado. Kieslowski usa o Fade In em diversas cenas com Ellipsis, composição de Preisner que corta o filme por umas três vezes. Pausas dramáticas que ajudam o espectador a respirar. O diretor usa muito bem o Leitmotiv seja pela cor ou pela música.

Para aqueles que acham o filme monótono insisto que a obra deve ser vista diversas vezes em estágios de maturação diferentes. Kieslowski gastou todas as energias nos três últimos filmes da carreira. O perfeccionismo do diretor pode ter sido a causa do seu prematuro falecimento.

Quando decidiu parar já era tarde demais. Kieslowski morreu pela Arte.

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