João Donato transforma show em ensaio franco e aberto
João Donato transforma show em ensaio franco e aberto, suscetível a erros e acertos

Independentemente do lugar ocupado pelo público, fosse no mezanino, no térreo, no canto ou no meio do auditório do Sesc Vila Mariana, a energia positiva do João Donato alcançava olhos, ouvidos e almas. No show realizado ontem (dia 16/7), em que comemorou 75 anos de vida e 60 de carreira, Donato esbanjou versatilidade. Tocou standards de jazz, ritmos cubanos, sons genuinamente brasileiros, bossas. Até cantar, cantou. Mas do jeito dele, suave, sem vocalizes, esbarrando a todo momento no limite do inaudível.

Na primeira parte do show, mais calada e homogênea, Donato deixou de lado as rédeas e o microfone para atuar no que faz melhor: improvisar no piano. Foi além das claves das partituras. Ele desconcertou, reconstruiu, pintou e bordou, mesmo perante o silêncio do público. E quando o conglomerado interrompia sua performance com aplausos e assovios, ria, tirava as mãos das teclas e balançava os braços, como todo velhinho simpático faz quando brinca com uma criança. Aliás, João Donato se sente como uma criança vibrante e energética no palco.

Entretanto, quando assumiu o vocal, um leve desapontamento. Sua voz, sempre serena, estava mais inaudível que o normal. E para quem conhece João Donato, sabe que o problema não estava na regulagem do som. Era a sua voz mesmo, só que mais arranhada e introspectiva. Marcas da idade. Mas como eu disse, foi um leve desapontamento. Não fez o show desandar.

Para não tornar o espetáculo monótono, ele brincava com o público, contando piadas e histórias de um senhor experiente e bem-relacionado musicalmente. Seus parceiros de ontem e hoje são os mais variados. De Fernanda Takai, com quem fez uma composição retratando o Japão, passando por Marcelo D2 e Joyce, a nova “parceirinha 100%”, como dizia Vinicius de Moraes carinhosamente a seus amigos de letras e bares.

Em muitas de suas falas surgidas nos intervalos entre uma música e outras era nítido o sinal da tenra idade de Donato. Outros até disseram que ele parecia mais velho do que os seus recém-completados 75 anos. Esquecia-se do repertório, perdia o papel com as letras, trocava as introduções, raciocinava lentamente, falava baixo no microfone… Mas o que poderia ser desastroso, acabou transformando o show em uma sala de ensaio, onde erros e acertos são confidenciados e comemorados. Ouvir Donato é testemunhar a sensação de se criar uma canção.

E para completar essa descrição nostálgica – afinal sou fã de João e da horda bossa-novista de sua época –, Joyce, uma artista de canto fácil e saboroso, acompanhou o simpático pianista, com sua voz e seu violão, em sons antigos e novos, nascidos dessa parceria. A dupla tocou “Bananeira”, “Sambou, Sambou”, “A Rã”, além da recentíssima “No Fundo do Mar”, cuja simplicidade harmônica entra em embate com a bem lapidada estrutura melódica, habilidade presente em quase todas as suas músicas.

Amparadas em letras simples e de fácil assimilação, muitas dando tônica ao cotidiano (coisas tão simples de nós dois / pão com manteiga no café), suas canções embarcam em viagens sonoras e experimentais, pisando firme na harmonia linear, mas com uma riqueza melódica admirável.

Resumindo a história, João Donato também dá aula de música.

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