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O clima nublado pela manhã denunciava o panorama vespertino.  Não haveria trégua, a chuva banharia São Paulo e a cidade conheceria o caos. Neste contexto recebera um convite do grande amigo Eduardo para assistir uma peça de teatro francesa, inclusa nas comemorações do Ano da França no Brasil. Tarde chuvosa, trânsito infernal e corro para mais uma jornada cultural. Minhas expectativas eram enormes, já que meu amigo é um profundo conhecedor do teatro, graduado pela USP e com ótimas empreitadas como autor de peças com bonecos. Nossas conversas sempre fluem pelas esferas artísticas, trocamos boas idéias e dicas quando nos encontramos.

Tenho que lembrar que sou seduzido por qualquer produção que receba uma chancela francesa, talvez pelas ótimas experiências com o cinema e teóricos daquele pedaço de terra. Mas ao chegar ao Teatro João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650) fiquei assustado com a ausência de público. As portas trancadas remeteram ao fim do expediente. Percebi que um segurança circulava pelo saguão permitindo o acesso a quem se aventurasse pela calçada. Depois de um café envolto de várias idéias entramos para assistir a peça.

Lulu Et La Malle Aimée (Lulu e a Mala Amada) é um espetáculo desenvolvido e encenado pela atriz e coreógrafa francesa Eléonore Guisnet-Meyer. Lulu é uma personagem que após adormecer sobre um Baú, acorda e contrai um ritmo corporal intenso. A fórmula é antiga – surpreender o público tirando coelhos da cartola, nesse caso do Baú. Infelizmente o Baú de Lulu não tinha nenhum atrativo. O início da peça é frio e sem graça perdendo-se entre danças e movimentos enfadonhos. A atriz tinha como explorar diversos aspectos, mas o roteiro pobre e sem sentido deu o tiro de misericórdia no espetáculo.

Não entendi a razão do 7º Festival de Intercâmbio de Linguagens (FIL) importar um espetáculo tão ruim. Aliás, que evento mal divulgado. Em plenas férias escolares o teatro tinha apenas duas senhoras surdas-mudas e um pai e o filho perdidos entre as disputadas 500 cadeiras. Contando comigo e o Eduardo, éramos meia dúzia de gatos pingados. Dizem que a paixão pela arte supera a falta de espectadores, o próprio Eduardo me revelou que apresentara um espetáculo para uma pessoa. Acredito é na falta de divulgação e de comprometimento do diretor do teatro. Tantas escolas na região e uma série de pais desesperados por opções de lazer no recesso escolar.

Presenciei o fracasso do teatro João Caetano, imerso no abandono do espaço e afogado na falta de criatividade da peça escolhida. Ao final batemos palmas formais, um consolo pela longa viagem e esforço de Eléonore. Depois de deixar meu lugar voltei para pegar meu guarda-chuva enquanto a personagem Lulu arrumava seu Baú para voltar pra casa.

Na saída não havia ninguém para abrir a porta e ouvir a melancólica despedida – Au Revoir Teatro Mambembe!

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