talese

Na noite de terça-feira (7/7), depois do horário comercial, quem passasse pela avenida Paulista certamente tomaria um susto ao avistar a enorme fila que dobrava o quarteirão do MASP. Afinal, o museu não abre suas portas às 7 e 30 da noite. Acho que nem a exposição do Vik Muniz – a exposição, não ele – causaria tanto furor. Ainda mais na hora em que muitos, os mais ‘paulistanos’, querem chegar logo em casa.

Mas a movimentação era por causa de uma pessoa sim: Gay Talese. Junto com alguns jornalistas figurões da década de 1960, Talese criou e desenvolveu o ‘new journalism’, uma maneira mais sofisticada de escrever, aproximando o fato noticioso com a leveza e a subjetividade da literatura.

Sem me alongar enumerando seus feitos, o escritor-jornalista, em forma e muito lúcido em seus 77 anos aparentemente bem vividos, foi o responsável por uma das biografias mais curiosas do mercado editorial, a de Frank Sinatra. Após lhe negar entrevista, o cantor deixou de ser alvo de Gay Talese, que resolveu contar a história do homem de “My Way” a partir de depoimentos das pessoas que o cercavam, como o motorista, o dono do bar amigo de Sinatra, entre outras fontes, a maioria, curiosas, claro. E detalhe: Talese fechou o perfil (Sinatra Está Resfriado) sem ter entrevistado o cantor. Maluco? Não. Oportunista e criativo, talvez.

Todos os seus livros possuem linhas narrativas obtusas, ricas em pontos de vista. Mas ele, por si só, é um cara (um senhor) inusitado. Falo isso porque no dia 4 de julho, um sábado de clima bonito mas instável, eu estive na FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), e tive a sorte de conferir, através de um telão – desde a abertura das vendas não havia mais ingressos para sua palestra –, suas objetivas palavras. Soltadas ao ar como raios certeiros, eram proferidas, fincavam nos ouvidos, e depois ecoavam.

Sério e elegante, o jornalista levou a uma multidão de pessoas o seu pensamento com relação ao jornalismo atual, profusão da internet e das redes sociais e, claro, aos dilemas de se trabalhar os fatos reais de forma subjetiva.

Tinha muita, MUITA gente esperando por ele. Sentado, eu olhava pra trás e achava curioso que os “sem-ingressos” se amontoavam sem atrito, sem confusão. Na fila à frente, onde estava um indiferente Hélio de la Peña (o casseta mesmo), e na fila de trás, os olhos pouco se mexiam ao ver a imagem de Talese. As cabeças, algumas apoiando um fone de ouvido por querer o áudio original, não a tradução simultânea, não saiam da posição levemente inclinada. Viraram estátuas. E não era para menos. Fotografia era proibido, mas viam-se diversos flashes, tanto de dentro da tenda como nos arredores, atulhados de pessoas.

Mesmo parado para a palestra Gay Talese, o centro de Paraty continuava destilando suas cores e luzes. Intocada pelo tempo, a cidade tem um ar cultural especial. Além de ser um lugar-síntese da história do Brasil, oferece gastronomia de ponta, música da melhor qualidade regada a muito jazz e música brasileira e cantos que ainda resguardam as memórias do local. Andar pelas ruas e vielas de chão pedregoso pode parecer desastroso, mas é uma experiência única. Vale a pena.

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