Simone de Beauvoir, une femme actuelle

Depois de uma longa procura eu achara o livro que tanto buscara. Estava lá, escondido na biblioteca da minha ex-universidade. Com capa dura adaptada e folhas soltas me deparei com um exemplar de O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir. Na biblioteca só existiam dois exemplares que eram sempre requisitados, mas naquele ano tive a sorte de ficar com ele durante minhas férias. Seriam 30 dias junto com o livro que revolucionou o pensamento sobre o sexo feminino.

A busca era fruto da minha pesquisa sobre as primeiras tiras da personagem Mônica de Mauricio de Sousa. Precisava do livro pra entender mais sobre o “feminino”. Encontrei muito mais do que isso. Percebi uma pesquisa sólida e coerente naquelas páginas amareladas, um tratado sobre a Mulher com abordagens históricas, culturais e biológicas. Durante a leitura extraía passagens que poderiam justificar meu posicionamento frente ao sexo oposto.

Ao término, me dei conta do quanto àquela experiência havia sido enriquecedora para minha formação. O estado de ignorância completa deu lugar a um prazeroso conhecimento que ainda tem suas lacunas a serem preenchidas. Entendi o porquê de o livro causar tanta polêmica na época. Fora uma pesquisa revolucionária que lançou o sexo feminino em outro plano. Ficava admirado em ouvir aquele nome – Simone de Beauvoir.

Experiência passada e eis que o destino me prega uma grande peça. Em uma das minhas visitas ao meu ex-professor e grande amigo Carlos do Prado – ele me contara que havia visto dois exemplares do livro de Simone em um pequeno sebo na esquina. Quase não acreditei, duvidei de sua afirmação. Sua certeza nos fez ir até o local para conferir um rapaz que organizava poucos livros sobre uma lona em um canteiro. A expectativa foi confirmada quando Carlos empunhou o livro que tanto procurei. Era um exemplar intacto do Segundo Sexo com capa original e lombada perfeita. Ao perguntar o preço uma nova surpresa – míseros R$4,00 naquela edição de 1960 que em sebos chega a custar mais de R$100,00. Questionamos o vendedor sobre o outro exemplar – havia sido comercializado há poucos minutos.

Carlos me deu o livro de presente e quando caminhamos de volta tive uma nova surpresa. Quando abri vi uma assinatura antiga. As inscrições remetiam a própria autora, mas desconfiei da veracidade, pensei ser brincadeira do antigo dono. Para tirar a dúvida pesquisei na internet o autografo de Simone de Beauvoir. Encontrei um site especializado e pasmem – era a mesma assinatura no site e no livro. Descobri que em 1960, ano da publicação do livro, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre vieram ao Brasil a convite de Jorge Amado para uma série de palestras. Provavelmente em uma destas palestras o livro que hoje reside na minha estante tenha sido autografado.

Quase 50 anos depois encontrei com a ajuda de um amigo este livro histórico e autografado. A situação lembra meu diretor favorito Alain Resnais e sua temática – tempo e memória. Direi aos meus filhos que guardem o livro com carinho e contem sua história. Farei o impossível para que essas memórias não se percam novamente. Ah e que todos tenham a oportunidade de ler esta obra magnífica, finalmente re-lançada este ano.

Anúncios