Cada um tem o seu patriotismo. A questão é saber onde pisa.
Cada um tem o seu patriotismo. A questão é saber onde pisa.

Eu tive um amigo que se dizia argentino. Nascido no interior de Minas Gerais, o cara era brasileiríssimo, cabeça chata e falante. Até comia algumas consoantes como o típico mineirinho. Ele tinha o pé aqui, mas não tirava da sua cabeça a ideia de um dia mudar-se definitivamente “para a terra natal”.

Esse meu amigo era tão argentino que deixava de torcer para o Brasil quando este jogava contra o arquirrival. Era curioso e compreensível. O cara, embora conhecesse, não gostava do Brasil, amava a Argentina e gostaria mesmo de ter nascido lá, como um hermano. Fazer o quê?

Balbuciava, suspirava, tinhas sopros nostálgicos ao falar dos cafés, das ruas e vielas de Buenos Aires, do tango – que aprendeu a dançar -, dos bosques de Palermo, das casas coloridas do La Boca (El Caminito)… A todo custo queria converter os amigos em potenciais admiradores da cultura argentina. Em homenagem a “sua nacionalidade”, lia alucinadamente as loucuras do Borges, viajava ao som de Astor Piazzola e acompanhava a evolução do cinema latino (ele até gostava de Gláuber Rocha).

Para a nossa admiração, se matriculou em um curso de pós-graduação em História da América Latina e pensou em abandonar o jornalismo para lecionar. Como faz tempo que não o vejo, não sei se ele desistiu da profissão para abarcar o sonho de ser professor de História. É bem provável.

Hoje, eu tenho um amigo que se diz norte-americano. Com a mesmo convicção do colega argentino, afirma que nasceu no país errado. “Música brasileira é uma merda”. O cara não tá nem aí, fala mesmo, e sem pensar.

Pela forma e entonação que ele fala a respeito do Brasil, parece gostar apenas da cultura dos Estados Unidos (ou países em que se fala o inglês). Gosta dos filmes, da música, dos best sellers genuinamente americanos. Só. “E um filme nacional, uma bossa-nova, um sambinha bacana, um livro escrito por um tupiniquim?” Nem ofereça. Qualquer preciosidade brasileira, nossa, seria desprezada por ele. Sem motivo, mas seria.

É compreensível. O cara não gosta do Brasil. Desejou muitas vezes nunca ter pisado aqui. Queria ser estrangeiro. Queria ser norte-americano, talvez o típico nacionalista (ufanista) que desdenha a cultura internacional, sobretudo uma das mais ricas, a brasileira. Mas será que ainda existe um americano assim?

Anúncios