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“Um Filme Dificil”, “Uma Nova Experiência no Cinema”, “Extraordinário”

As frases acima representam as principais opiniões expressas em 1961, ano de lançamento de O Ano Passado em Marienbad, longa-metragem de Alain Resnais posterior a Hiroshima, Meu Amor (1959). Quarenta e oito anos após a estréia do filme nos cinemas, a Criterion lança uma edição restaurada, recheada de extras e entrevistas. Acabo de assistir ao material e assemelho-o a um banquete para os fãs do diretor francês.

Para quem não conhece, a Criterion é uma distribuidora norte-americana que detém um acervo impressionante de grandes obras do cinema. Seus lançamentos são sempre acompanhados por discos com material extra-filme, como entrevistas, finais alternativos, fotos, etc. A empresa faz um trabalho digno de elogios no restauro de importantes obras, muitas vezes esquecidas ou perdidas no espaço-tempo. Com o avanço tecnológico, a Criterion começa a lançar seu material em outros formatos. O Ano Passado em Marienbad  também está disponível em Blu-Ray.

Tão difícil quanto assistir ao filme seria comentar uma produção tão minuciosa. A pré-produção já fora difícil. Resnais queria filmar em um espaço onde houvesse o predomínio da arquitetura barroca e boa parte dos hotéis e castelos franceses representavam a estrutura clássica. A solução foi viajar até a Alemanha para pesquisar possíveis locações. Uma das cenas mais comentadas acontece em um extenso corredor, porém como esse espaço não foi encontrado, a tomada foi dividida em 3 sequências em diferentes corredores que transmitem um efeito bem interessante.

O que dizer então da preocupação de Resnais com o cabelo de Delphine Seyrig que havia cortado as madeixas sem a permissão do diretor. A solução foi o famoso penteado visto na imagem acima. A idéia inicial fora que o corte ficasse parecido com o de Louise Brooks no A Caixa de Pandora, estilo bem moderno para a época. Destaque para o figurino de Seyrig  que é composto por luxuosas peças da estilista Coco Chanel.

As interpretações teatrais aliadas a bela fotografia (Sacha Vierny) e ao texto poético de Alain Robbe-Grillet revelam uma obra de arte completa. O transporte do romance ao cinema foi quase fiel, visto que o diretor não permitiu alterações no texto de Grillet. Resnais e Grillet discutiram bastante este filme, imerso em diferentes espaços temporais. A equipe de apoio chegou a elaborar um gráfico das cenas e respectivo espaço-tempo – presente, passado e atemporal. Tudo para organizar a difícil empreitada.

Todos pareciam em dúvida quanto ao resultado final, menos Resnais. Na montagem fica expressa a vontade e intenção do diretor. Talvez tenha sido o auge da sua discussão sobre a memória e o tempo. O Leão de Ouro no Festival de Veneza coroou sua ousadia e perfeição. Se fosse uma  pintura O Ano Passado em Marienbad poderia ser exposto nos principais museus do mundo. Como obra cinematográfica ele deve pertencer a coleção daqueles que apreciam o Cinema e a Arte.

Thanks Criterion!

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