A Morte é inevitável: Reflexões sobre o final de O Sétimo Selo

Thiago C Barbosa

“Tanto quanto me lembro, vivi a puberdade e até quase fazer vinte anos com um horror terrível da morte. Chegava a ser insuportável. (Ingmar Bergman)

Uma forte tempestade direciona um grupo de personagens a um sombrio castelo medieval. Após uma longa jornada por uma Europa devastada pela peste, o cavaleiro, caractere principal deste enredo, chega a sua residência e re-encontra sua esposa acompanhado por um grupo de amigos. Tal contexto que poderia ser associado a termos como “refúgio” e “conforto” esconde na verdade o último suspiro dos personagens de “O Sétimo Selo” (1957), obra que no decorrer de décadas ganhou notoriedade na filmografia de Ingmar Bergman (1918 – 2007).

O jantar que precede a chegada da “Morte” parece envolto em medo e angústia. Bergman utiliza “close-ups” enquanto um dos personagens faz a leitura do Apocalipse, trecho bíblico que descreve o “fim dos tempos”. Batidas na porta silenciam o grupo que parece temer algo ou alguém. O fiel escudeiro do cavaleiro se prontifica a ver quem incomoda o jantar e ao voltar relata que nada encontrara ao batente da porta.

A cena prossegue e novamente Bergman utiliza o recurso “close-up” para demonstrar o horror na face da personagem ao ver a chegada da “Morte”. Com rosto pálido e capa preta, a “Morte”, observa enquanto parte dos caracteres se apresentam em uma fraca tentativa de perdão e redenção. Enquanto todos se curvam ao destino, o cavaleiro começa a orar pedindo misericórdia a “Deus”. Lembremos que no decorrer de todo o filme o cavaleiro tivera uma profunda inquietação relacionada à existência ou não desse mesmo Deus pelo qual clama ao final. A oração ganha intensidade em uma tentativa desesperada de escapar da morte assim como o jogo de xadrez fora em todo o filme.

Naquele tempo eu ainda vivia com uns restos estiolados de uma fé de criança, a idéia absolutamente ingênua do que se poderia chamar uma possibilidade de salvação para além deste mundo. (BERGMAN, 1996, p. 234)

Como não vencera no xadrez, o cavaleiro ora pelo seu destino incerto. Porém como é de praxe na “vida real” a morte acaba por vencer o indivíduo e todos acompanham a personagem em uma cena que ficaria registrada como uma das mais importantes na História do Cinema.

No alto de uma colina a “Morte” conduz uma dança entre os personagens. Todos estão de mãos dadas, fato que parece evidenciar o elo entre eles no filme. A morte muito vezes retratada com sofrimento e dor parece ganhar um destaque especial no final de O Sétimo Selo. A personagem baila com suas vítimas em um momento onde é imperceptível qualquer tipo de tristeza.

Bergman que faleceu meio século após a estréia de O Sétimo Selo parece ter jogado xadrez por mais tempo do que qualquer outro diretor com sua célebre personagem pálida. Sua contribuição para o Cinema é inegável e seu extenso repertório caracterizam um artista singular que nos últimos anos de vida enxergava com tristeza a então trajetória comercial da sétima arte.

“(…) o ser humano tem dentro de si sua própria Santidade, que é deste mundo e não tem explicação fora dele”. (BERGMAN, 1996, p. 236)

 

Referências

BERGMAN, Ingmar. Imagens. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

BERGMAN, Ingmar. Det Sjunde Inseglet. Suécia: Svensk Filmindustri, 1957. DVD. 96 Min.

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