double

Não é fácil tecer uma análise de A Dupla Vida de Veronique (1991). Sou suspeito ao comentar sobre esta e outras obras do genial Krysztof Kieslowski, contudo não posso deixar de relatar o meu estranhamento no primeiro contato com o cinema polonês. Para começar o roteiro do filme em questão não é dos mais elucidativos e a utilização da mesma atriz na realização de duas personagens com características similares pode confundir o espectador acostumado às narrativas lineares. Esse era meu caso quando vi o filme pela primeira vez. Porém o universo ficcional do diretor que até então era conhecido pelo trabalho como documentarista conseguiu capturar minha atenção. Esta paixão pelo mestre polonês reside no casamento perfeito entre áudio e imagem. Poucos sabem realizar tal ligação e Kieslowski teve a colaboração de outro sujeito pelo qual tenho grande admiração – Zbigniew Preisner.

Antes de suas investidas no set, Kieslowski pedia a Preisner algumas composições e no caso de A Dupla Vida o diretor havia comentado com o amigo que gostaria de contar com músicas “bonitas” em seu novo trabalho. O adjetivo “bonita” ajusta-se perfeitamente ao trabalho magnífico de Preisner, que realizaria até então seu melhor trabalho como compositor de trilhas-sonoras. Posteriormente o músico voltaria a trabalhar com Kieslowski na Trilogia das Cores, fatalmente a última obra de Krysztof.

Porém o áudio, por vezes considerado secundário precisa ser avaliado naquele que citei anteriormente como “Casamento Perfeito”. O noivado da imagem e do som começa na caracterização de Irene Jacob, a nossa então desconhecida Veronique. Logo no início percebemos que a personagem é cantora lírica e a obra de Van den Budenmayer (compositor fictício) é a trilha que dá o tom a sua carreira. Quanto a imagem temos um tratamento fotográfico primoroso com a adoção de tons esverdeados durante todo o filme. O filtro fora muito bem escolhido, fato que contribuiu para o ambiente onírico da produção. Kieslowski desenvolve uma viagem surreal entre a vida de duas personagens que tem muito em comum porém não se conhecem. Talvez este tenha sido o principal tema desenvolvido pelo diretor durante o filme – a ligação e proximidade que temos um com o outro.

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